Réquiem para Denilson

Lapidar

Minha procura toda

Trama lapidar

O que o coração

Com toda inspiração

Achou de nomear

Gritando alma

Recriar

Cada momento belo

Já vivido e mais

Atravessar fronteiras

No amanhecer

E ao entardecer

Olhar com calma, então

Alma vai

Além de tudo

Que o nosso mundo

Ousa perceber

Casa cheia de coragem

Vida

Tira a mancha que há no meu ser

Te quero ver

Te quero ser

Alma

Te quero ser

Alma

Viajar

Nessa procura toda

De me lapidar

Nesse momento agora

De me recriar

De me gratificar

Te busco alma

Eu sei

Casa aberta

Onde mora o mestre

O mago da luz

Onde se encontra o templo

Que inventa a cor

Animará o amor

Onde se esquece a paz

Alma vai

Além de tudo

Que o nosso mundo

Ousa perceber

Casa cheia de coragem

Vida

Todo afeto que há no meu ser

Te quero ver

Te quero ser

Alma

Te quero ser

Alma

(Milton Nascimento/José Renato)

Milton Nascimento sempre foi uma imensa paixão compartilhada por mim e meu pai, Änïmä é há anos a minha música favorita da vida (que carrego marcada na pele, dá nome à sala principal da Ciranda e sempre me traz muitas reflexões à minha trajetória), e acredito que caiba como uma luva nesse momento. Ainda estou completamente imersa no turbilhão de emoções que foi essa volta à Bahia dois anos depois. A minha primeira desde o início da pandemia. A minha primeira depois da partida do meu pai. A última, há dois anos o tive ao meu lado como parceiro de viagem, essa é a última que o tenho como parceiro, mas dessa vez, ele veio na mala, como um punhado de cinzas.

Passaram-se 367 dias para que nós, enfim, conseguíssemos fazer a cerimônia de despedida do meu pai depois da sua partida. Antes disso, eu (e acredito que toda a minha família, inclusive ele) vivi longos 297 dias entre o diagnóstico do câncer de pâncreas e a data de seu falecimento – embora seu tratamento tenha começado 17 dias após o diagnóstico (muito rápido, levando-se em conta que isso aconteceu em pleno recesso de Natal e Ano Novo – uma vez que a descoberta se deu em 23 de dezembro de 2019), a natureza avassaladora do tumor, já foi nos preparando para seu triste desfecho. A porrada foi forte – tanto que minha mãe imediatamente deixou a sala do oncologista para ir ao banheiro chorar.

Nosso processo de luto, de perda e de partida do meu pai foi longo e diferente do habitual, por isso, creio que o dia de sua partida foi só um dia de descanso pra ele. De verdade! De coração! Acredito que a falta que ele nos faz fará sempre parte de nossas vidas. A gente se habitua a certas faltas, mas elas nunca deixam de existir, e creio que é isso.

Ano passado eu falei e repeti inúmeras vezes, o quanto embora tenha sido um ano difícil, foi um ano revelador. Aquela coisa bem de Xangô, da justiça, de derrubar máscaras, mostrar quem é. Porque eu vi que “quem é de verdade, sabem quem é de mentira”. Muitas pessoas da família que a gente sabia muito bem que poderia contar, não decepcionaram, e muitos, mesmo que estivessem à distância (física), estiveram conosco o tempo todo. Alguns amigos se mostraram muito mais que amigos, ou como disse o próprio Edu, mostraram que são amigos de fato, que é pra isso que amigo server – e fecharam conosco de um jeito que eu jamais supus – de maneiras mais distintas possíveis. Teve familiar que esteve distante durante certo período e se achegou, para dar carinho, amor, suporte, porque sabia que estávamos precisando. Porém, teve gente que, afffffffff… Tem “amigo” e “familiar” que nem durante o processo, nem na hora H e nem agora. E aí você lembra aquela máxima de que “o seu sangue até pernilongo tem”. Mas eu creio muito que tudo isso só serviu para nos engrandecer, porque mostrou a verdadeira face de muita gente, e de quem eu não posso esperar ABSOLUTAMENTE NADA.

E aí vocês sabem que aqui quem fala é a pessoa que é filha da tempestade e da ventania, que nunca teve muitas papas na língua e depois de passar por um biênio carregado de tanta dor e sofrimento, não se vê nem um pouquinho obrigada a fazer teatrinho algum para agradar quem quer que seja.

Mas, depois desse enorme nariz de cera, e voltando ao foco principal desse texto, volto ao motivo que me trouxe de volta a Salvador nesse momento: a cerimônia de despedida de meu pai. Salvador é a cidade dele. O lugar que nasceu e a terra que verdadeiramente amou. SEMPRE! Onde está toda a sua família (à exceção de mim, minha mãe e Taygoara), boa parte de seus amigos e também, boa parte de suas lembranças. Não havia como ser em outro lugar. E foi no mar. Na Ribeira – outro lugar de suma importância. Para ele, para eles (como casal), para nós (como família). No mar. Se havia algo que ele amava e admirava mais que o mar, talvez a Lua – mas eu ainda não tenho cacife, nem amizade com o Bezos, para bancar uma ida até nosso satélite e espalhar as cinzas por lá. Por isso escolhemos que seus restos mortais fossem flanar, erraticamente, pelas águas da Bahia de Todos os Santos.

Na Ponta do Humaitá, minha mãe puxou o bonde da oratória, seguida por mim e Zanetti. Esse, segundo meu tio Emiliano, o grande amor da vida de meu pai – hehehe – chamado carinhosamente de Chão, por Zana. E só nós sabemos do esforço hercúleo, do imenso ato de amor e amizade que foi a sua presença por lá nas atuais circunstâncias. Falou também Diogo – que todos sempre brincavam, que nunca ia a evento algum, a não ser quando meu pai estava, e brincaram que meu pai seguia conseguindo o feito, mesmo depois de morto. Depois falaram Zé Alberto, Edinho, meu tio Emiliano, Taygoara (aos trancos, barrancos e muitos soluços), falou Sérgio, falou Maria, falou Léo, e cada um foi apresentando um pouquinho das muitas facetas de um personagem tão rico e multifacetado quanto foi meu pai. Doce, carrascoso (!), solidário, afetuoso, porradeiro, empático, estripador de bolas, artista, poeta, palhaço, parceiro, paizão, ideialista, íntegro, teimoso, dogmático, passional, perfeccionista. Cada um tinha uma história pra contar. Uma vivência única e particular de uma pessoa que por onde passou deixou sua marca.

Ateu que (dizia que) era, teve sua cerimônia sem nenhum tipo de menção religiosa, mas com um muitas lembranças ao seu caráter inegavelmente cristão, empático, solidário e profundamente preocupado com o próximo. E ali, cada um em sua fé (ou ausência dela) rendeu a ele suas homenagens e vibrações. Foram muitas emoções e foi um lindo início de tarde, coroado de muitas lindas lembranças que aquecerem o coração de tantos que ele amou e marcou em sua passagem por aqui.

Todos os presentes pegaram um punhado de suas cinzas para jogar ao mar, e no final, eu, minha mãe e Taygoara, jogamos juntos os últimos punhados, fazendo nossa despedida particular. E fechamos o ciclo dele por essas paragens. Ao lado da família de sangue e da família do coração.

Finda esta parte, fomos para alguns metros adiante, de fronte da Igreja de Boa Viagem, finalizar o rito com um bom caruru, ideia de minha prima Sônia, com panelas comandadas por Neuze. Foi um réquiem com a cara que de Denilson Vasconcelos; com sua baianidade, com seu ateísmo sincrético de candomblé e catolicismo; com seu amor pelo próximo, pela família, pelos amigos; com sua paixão pelo mar e pela Bahia; e com toda simplicidade que sempre foram a sua marca.

Carla gritou enquanto jogou suas cinzas, e é fato notório: DENILSON VASCONCELOS, PRESENTE!!!

Sempre…

E como já diria Milton, com quem eu comecei o texto (acho que é digno encerrar com ele também): “qualquer dia amigo eu volto a te encontrar, qualquer dia amigo a gente vai se encontrar…”.

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No limite

Mens sana in corpore sano, e eis que, ultimamente a minha mens não tão sana cobrou seu preço e deixou meu corpore nada sano. Na semana passada sucumbi total, febraço de quase 40, fiquei prostrada e até uma fake news de que eu tava com COVID rolou por aí.

Hoje foi dia de fazer meu retorno trimestral com a Marina, minha fiel escudeira que cuida da parte química da minha mente (vulgo, minha psiquiatra), e que ao lado da Cris (minha terapeuta) e do Babá e da Yá (meus pais de santo), são os grandes responsáveis por eu estar “inteira” até aqui e a ter sobrevivido a 2020. Porque vou te dizer que sem eles, não sei – sem exageros – se eu estaria viva.

Mas voltando ao começo do outro parágrafo, hoje foi dia do meu retorno com a Marina. E aí que saí de lá com uma pequena grande bomba. Porque agora, além do combo depressão+ansiedade+TOC, ganhei mais um pra lista: burnout!!! 🤷🏻‍♀️🤷🏻‍♀️🤷🏻‍♀️🤷🏻‍♀️

Pois é, pois é, pois é…

Além desse novo diagnóstico, ainda saí de lá com a dose de sertralina triplicada (porradinha no organismo e no orçamento) e a de topiramato dobrada. E ainda me botou de licença forçada de 10 dias – me afastou do trabalho para que eu desse uma desligada de tudo. Ou seja, a pane da semana passada já era meu organismo gritando por socorro!!!! Então agora, sem opção, ou para ou para… É o jeito né!

E essa é a vida de quem sofre com esses distúrbios e tem que cuidar da saúde mental, é um constante consertar as coisas quebradas com o carro andando. Tudo muito mais difícil e complicado do que parece e de quem não passa por isso pode supor. Mas enfim, vou seguir as dicas da Marina e a partir de amanhã dar uma sumida geral! Sem Insta, sem Facebook, sem whatsapp. Vou desligar tudo mesmo. <3

Acredito que quando voltar, vou estar renovada, um pouco mais forte pra encarar essa batalha hercúlea que é viver no Brasil de Bolsonaro. Então, simbora!!!!

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31 e 307

Hoje faz um mês que minha vó nos deixou (a ficha ainda não caiu…) e ontem fez 10 meses da partida do meu pai. São 31 dias sem ela, 307 dias sem ele. E a vida segue… Mas segue mais seca, menos doce, mais vazia…

Não tem um dia que vá ao apartamento da minha vó, e ao ir embora, não olhe pra trás, pra dar o costumeiro tchauzinho – ela sempre ia até a janela pra se despedir da gente até sumirmos de vista. Esse luto tem sido completamente diferente (e mais complexo) de todos os outros que vivi até então.

E o do meu pai, é aquela coisa pungente, que tá ali sempre. Que me vem com força quando ouço uma das muuuuuuuitas músicas que amávamos em consonância. Quando coloco em prática algum dos milhões de ensinamentos que me legou. Quando relembro suas milhares de manias. Quando encontro algum objeto inusitado em seus muitos acumulados. É um luto contínuo, cheio de altos e baixos.

Na semana que passou, ao fim do Dia dos Pais (o primeiro sem o Denão ao meu lado!) eu comecei a baquear pesado, murchei mesmo… No dia seguinte eu não tinha força pra absolutamente nada! Até febre eu tive, fiquei dois dias péssima de tudo. Foi horrível!!! Em 1987, minha mãe precisou ir à Bahia pra juntar uma papelada trabalhista, e foi a primeira vez que ficamos longe uma da outra. E eu tive um baita de um febrão, meu pai teve até que me mandar pra casa da minha vó, porque ele sozinho não dava dando conta da carência e febre emocional. :(

Agora, 35 anos depois, com esse two-hit-combo de luto, a coisa toda voltou! Teve jeito não. E aí com esse fim de semana de “duplo marco”, a jururuzice me pegou de novo. Ontem acordei com uma dor de cabeça cabulosa, não sei se tem alguma coisa a ver com reação da segunda dose da vacina ou se ainda entra no pacote emocional. Enquanto isso vamos seguindo e tentando administrar a tristeza, que, como já diria Tom e Vinícius, não tem fim…

Mas a vida não para, né! Temos que continuar adiante.

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E essa ficha que não cai…

Casamento da minha prima Fabiana, em julho de 2019

Já estamos caminhando pra três semanas, e é muito doido pensar que você não tá mais aqui, que não vou mais pra sua casa às terças pra lermos juntas o livro do Tio Emiliano e relembrarmos sobre cada passagem do mesmo, nem te ajudar a fazer as “lições de casa” que a Dra. Giovanna te passava. Nem que não vamos mais almoçar juntas todas as quartas depois de você fazer sua sessão com ela.

É engraçado pensar que você não vai mais ser a personagem principal do espetáculo da Ciranda. Pensar que não vou mais chegar lá a tarde pra te dar um beijo e você insistir pra tomarmos um café (e o seu não tinha nada de café de mineiro!) com cascorão. Saber que você não vai reclamar que eu “não comi quase nada”, mesmo depois de ter repetido o prato três vezes. Pensar que não vou mais ouvir sua gargalhada tão gostosa, quanto eu te pegava no susto e fazia cosquinha na sua barriga. Nem vou ouvir mais você mandando “sossegar a sapituca!” ou assustada com algo bradando: “ai, meu Deus do céu, minha Nossa Senhora!”.

É muito estranho chegar naquele prédio, naquele apartamento e não te encontrar. Sair de lá e não ter que virar pra trás pra dar tchaus infinitos até sumir de vista. Eu sei que você tá aí olhando por mim, olhando por nós! Sei que está bem! Sei que segue linda, inteligente e dinâmica! Mas me dói, de maneira bem egoísta, não poder mais compartilhar de toda essa sua força e energia. Te amo e sinto a sua falta absurdamente! De um jeito que me impede deixar a ficha cair…

Fica bem, vozita!!! Se cuida e cuida da gente!!! E até qualquer hora, meu amor! <3

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Muitas nuances de uma grande mulher

Azuizinhas em 2015, em sua festa de 90 anos

Hoje depois de 35 anos ininterruptos, lá vou eu passar um dia da avó sem a minha avó. Pois é, eu tenho 42, mas meu avô faleceu em 1986, quando eu tinha 7. E minha mãe descobriu muito antes de ser moda, que dia 26 de julho era dia dos avós – coisa de pedagoga, né, gente… E aí, como tinha pouco mais de um mês da partida do meu avô, minha mãe saiu com essa, e lá fomos nós paparicar Dona Filhinha, recém enviuvada. Lembro que chegamos lá aos berros: FELIZ DIA DA VÓÓÓÓÓÓ!!!! Eu com 7 anos, Taygoara com 4, imaginem o berreiro. E ela me sai com um: “e existe isso?!” – hahahaha.

Hoje já tinha até preparado um super apanhado de fotos para relembrar um pouco das nossas fanfarronices ao longo de 42 anos de convívio e amanheço com a surpresa do Instagram bloqueado – sei lá o que houve, se foi a minha caralhada de posts anti-minions, anti-racistas, anti-Borba Gato. Sei é que me saíram com essa e estou impedida de fazer qualquer coisa na tal rede. Paciência!!! Então resolvi vir pra cá pra terminar de escrever esse post, que eu estou há 10 dias remanchando.

Dia da vó, enfim, era pra ser hoje, né!!!!

Escrever pra mim é quase uma terapia, colocar o que sinto pra fora através das palavras é quase catártico, e eu não poderia deixar de vir falar sobre a minha vó. Ela saiu de cena, no último dia 15 e deixou um buracão no meu coração. Partiu de repente, sem nos preparar. Logo nós, que ao vermos ela chegar tão bem, ágil, sadia, serelepe e cheia de tiradas aos quase 96 anos, passamos a acreditar na sua imortalidade. Foi quase um século, e ainda assim, parece que não foi tempo suficiente…

Minha avó foi um dos personagens mais ricos que eu já tive notícia. Teve uma vida pintada com tantas cores que faria inveja ao mais talentoso dos pintores. Era uma unanimidade – assim que souberam de sua partida, todos os sobrinhos disseram: “perdemos nossa tia sorriso”. Mas, nem por isso, pensem que ela era uma pessoa fácil. Muito pelo contrário.

Nascida em 19 de novembro de 1925, em Minas Gerais, numa cidade chamada Santa Catarina (?!), subdistrito de Heliodora. Como nasceu de sete meses, ganhou o apelido de Filhinha, e embora fosse a antepenúltima filha, sua condição de prematura lhe rendeu paparicos de caçulinha a vida toda – ainda mais em uma família numerosa como a dela. Dentre os muito irmãos, sempre foi mais chegada na irmã caçula, Therezinha (que recebeu esse nome em homenagem à avó materna) e de Vicente, seu irmão imediatamente mais velho. E também vivia às turras com seu irmão João Barbosa – ciumento, possessivo, mandão e que gostava de mandar na vida dela (segundo palavras da própria).

Permaneceu em Heliodora parte de sua infância, mudando-se, por volta dos cinco anos de idade, para Itajubá. Da época em que morava em Itajubá, ainda com seis anos de idade, contava sempre de lembrar do pai chegando baleado, vertendo sangue, por conta dos confrontos relativos à Revolta Constitucionalista – embora Itajubá seja uma cidade mineira, está a uma beiçada de São Paulo, e meu bisavô, Seu Oscar Barbosa, foi lá lutar ao lado dos paulistas e contra o governo de Getúlio Vargas. De família pobre e numerosa, lhe coube estudar apenas até o quarto ano, e depois se dedicar às prendas do lar, para que pudesse fazer um bom casamento. Ainda assim, escrevia e falava muitíssimo bem – e muitos e muitos achavam que ela era professora de tão bem que ela sabia falar, se impor e escrever. <3

Lindíssima, com 17 anos de idade, direto de 1942

Ainda mocinha se mudou para Jacareí, onde aos 18 anos conheceu Emiliano, que um ano depois viria a se tornar seu marido. Casou-se em Jacareí e aí, se mandaram pra Aparecida do Norte para passar a Lua de Mel – pense em algo menos romântico?! Hahaha. Mas enfim, um ano depois o casamento já estava rendendo frutos e foi uma escadinha.

Em Jacareí teve seus três primeiros filhos: Emilianinho (muito habitual na época – e principalmente na família Silva – que o primeiro filho homem levasse o nome do pai), Maria Aparecida (que iria se chamar Edwiges em homenagem à avó paterna, já falecida, e todos os irmãos Silva colocaram o nome da primeira menina de Edwiges em homenagem à mãe – minha avó bateu o pé e disse que não, que Edwiges era muito comum e batido, aí resolveu dar à minha mãe o raríssimo nome de Maria Aparecida – hahaha – eu amo essa história. Vale ressaltar que o nome de solteira da minha mãe é Maria Aparecida da Silva!) e Antônio Carlos.

Vovó amazona em Monte Alto

A essa época, vivia na fazenda do sogro, Seu Tonico, mas como quem casa quer casa, a família dos Barbosa da Silva rumou lá pras bandas de Ribeirão Preto, e mudaram-se pra cidade de Monte Alto. Lá minha avó teve uma outra bebê, Vera Lúcia, e depois, mais uma gravidez que rendeu um fruto natimorto (reza a lenda que a bolsa estourou antes da hora devido a um susto que tomou por conta de um homem fantasiado de palhaço macabro no Carnaval – mas pra mim, ela dizia que tomou um susto porque foi “beslicada” por uma tartaruga, o que rendeu um verdadeiro pavor do bicho até o fim da vida!).

Quando tinha pouco mais de um ano de idade, Vera Lúcia adoeceu e a família veio para São Paulo cuidar da saúde da pequena, sendo recebidos na casa dos tios Otávio e Leny (irmão e cunhada do meu avô Emiliano). Infelizmente, não foi possível fazer muito, e Vera Lúcia acabou falecendo em decorrência de uma gastroenterite.

Voltaram a Monte Alto destroçados, com minha vó já ostentando um barrigão de quase seis meses de gravidez, e devastada, fez uma promessa a Nossa Senhora Aparecida, que se viesse uma outra menininha, para receber o nome da que tinha partido, todos os próximos filhos da minha vó teriam seus nomes oferecidos à Virgem. E assim, meses depois, veio ao mundo Vera Lúcia Aparecida – que por um tempo, em família, ficou conhecida como Vera Lúcia Segunda.

No ano seguinte, mudaram-se para a cidade mineira de Teófilo Otoni (para os amantes de memes e afins, é a a terra de Esse Menino), onde nasceu meu tio Edvard, num parto super complexo, e que colocava a vida do bebê em risco. Depois de horas e horas, ele veio ao mundo, e ganhou o nome do médico que salvou sua vida, Edvard Luiz Aparecido (para cumprir a promessa feita à virgem). Nessa época, meu avô era caminhoneiro e a família levava uma vida de ciganos, peregrinando de canto em canto. Foram morar no sul da Bahia, na cidade de Jequié por um tempo, e depois ficaram durante um ano pingando de casa em casa de familiares, porque meu avô caiu na estrada sem deixar a família com pouso fixo.

Depois de retornar, resolveu fixar moradia com sua tropa em Guarulhos, onde ficaram pouco tempo, mudando um cadinho “mais ao sul” e vindo para a capital, onde nasceria a caçula da família, Eliana. Primeiro foram parar na Zona Leste, lá pras bandas da Vila Guilhermina, onde meus avós abriram uma pizzaria – que por sinal, afffff, meu paladar já sente saudade da inigualável pizza de sardinha da minha vó!!!!

De lá se instalaram no Jaçanã no início dos anos 60, onde fincaram profundas raízes, e onde minha vó ficou até o fim da vida (porque daqui saiu pro Jardim Cabuçu, que é um bairro agregado, coisa de cinco minutos de carro!). Chegaram morando no coração do bairro, em pela Av. Guapira, onde meu avô abriu um bar, em moravam na casa atrás, com um senhor quintal, com direito a pomar, galinheiro e afins – pra quem conhece o bairro, o bar e a casa, é onde hoje fica a Caedu (onde durante anos ficou a Fancy).

Depois de alguns anos na Guapira, se mudaram para a Rua Alto da Bela Vista, e saindo da vida de ciganos e de aluguel, se mudaram para o Jardim Cabuçu – onde meu tio Emiliano comprou um terreno, com intenções de se casar no futuro e ali construir uma casa, mas com a militância, fim do noivado e clandestinidade, a casa ficou mesmo para os meus avós. Ali minha avó viu seu filho mais velho cair no mundo para fugir da repressão e cair nas garras da ditadura em Salvador. Acredito que este tenha sido um dos capítulos mais duros e sofridos da vida da minha avó, da minha mãe e, obviamente do meu tio, que foi o protagonista dessa trama de horror que assolava o país, e atingiu em cheio à minha família. Foram quatro anos que ele passou encarcerado na Penitenciária Lemos Brito – parte dessa jornada ele relata na série de livros Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento. Lá meu tio conheceu Mércia, com quem teve seu filho Téo – primeiro neto da minha avó. E com isso, acabou pesando na decisão de se assentar em definitivo em terras baianas. O casamento acabou não vingando, mas filho é para sempre. Lá meu tio construiu sua carreira como jornalista, como acadêmico e também sua vida política, onde foi vereador, deputado estadual e deputado federal.

No meio das turbulências da ditadura militar, outro baque sacode a casa dos Barbosa da Silva, que foi a saída precoce de Antônio Carlos de casa, com apenas 16 anos. Sempre batendo de frente com os pais, sendo o terceiro da linhagem, precedido por dois “filhos exemplares”, ele era “o pau que nasce torto”. Era o mais arteiro, e segundo a minha mãe, também era o mais genial. Com a bagagem que temos hoje, certamente sofria de TDAH, porque nunca conseguiu ter concentração para aproveitar toda a sua genialidade. Saiu de casa, ganhou o mundo e deu uma bela desgarrada da família.

Vovó, vovô, Vera Lúcia, Eliana e Mamis no casamento de Octavinho – filho mais velho de Tia Leny e Tio Octávio

Em São Paulo, a vida seguia, dura demais. O filho que era o arrimo, tinha caído na clandestinidade e depois encarcerado. A filha mais velha assume as rédeas, mas precisa conciliar trabalho, faculdade e depois segue para Bahia, para poder dar algum amparo ao irmão que seguia preso. Meu avô, infelizmente, era alcoólatra e a vida da minha avó, longe dos três filhos mais velhos e com três filhos pequenos ou adolescentes, estava bem distante de ser um mar de rosas. Seu casamento em nada se assemelhava aos contos de fada que vendiam às mocinhas casadoiras. No finalzinho da década de 70, os Barbosa da Silva ganham mais um sucessor de linhagem, e chega ao mundo, essa que vos fala, primeira neta menina, e primeira neta e sobrinha na prática, uma vez que Téo, que já ia completar 4 anos, vivia em Salvador e quase não tinha contato com os avós. Dois meses após meu nascimento, um baque pesado assola a família. Antônio Carlos sofre um acidente de trânsito muitíssimo violento, seu carro se choca com um ônibus e ele é levado às pressas ao hospital. Num estado extremamente debilitado, ele permaneceu quase um mês internado, mas não resistiu a tantos ferimentos e ao baque psicológico da necessidade de amputação de uma perna. Até seus últimos dias de vida, minha avó sempre falava que esse foi o luto mais doloroso que teve que viver. Que foi uma dor imensurável, que era como se tivessem arrancado um pedaço dela.

No ano seguinte, foi a vez de meu tio Edvard dar a sua contribuição para o aumento demográfico da família, e foi a vez de Quelany chegar a esse mundo e virar a princesinha da família. Rapidamente se tornou o xodó do meu vô, uma vez que, por conta de ter pais muito jovens, seus finais de semana eram divididos entre as casas das avós Cida e Maria. A Quê era a coisa mais lindinha, parecia uma bonequinha, impossível não se apaixonar. Não deu outra, virou xodó! Menos de um ano depois, foi minha vez de ganhar um irmão, Taygoara chegou que nem a Banda do Zé Pretinho, para animar a festa (desde sempre!). Primeiro neto menino com convivência constante. O número de netos não para de crescer. <3

Filhos vão saindo de casa e desbravando o mundo, casando, ajuntando, e minha avó segue como fiel escudeira de meu avô lá no Jardim Cabuçu. Em 1984, nasce Ramiro, filho de Vera Lúcia, ela que era xodó do meu vô, passa o legado para o filho. Me avô, que sempre foi doido por crianças, não para de sorrir de orelha a orelha com o número de netos aumentando. Adorava exibir a patota pelo bairro. E jogar a criançada pro alto, e fazer brincadeiras que provocassem gargalhadas, além da chupeta mergulhada na espuminha da cerveja (um clássico da irresponsabilidade adulta do século 20).

Em 1986, logo após completar 62 anos (ele nasceu no dia 7), sem nenhum aviso prévio, meu avô teve um infarto fulminante no dia 11 de junho e deixa a família menos risonha. Minha avô vira uma mulher viúva aos 60 anos de idade. Como era dona de casa e não tinha renda, toca os filhos se mobilizarem como seria sua vida dali pra diante. Primeira providência, conseguir uma linha telefônica (202-8397 – nunca esqueço!). Eliana, a caçula, corre atrás de Marina, uma “dama de companhia” para que minha avó não ficasse completamente sozinha. E assim, os filhos foram cercando Dona Filhinha de amor e amparos de um jeito ou de outro. De herança meu avô deixou seu táxi-fusca que ficou para meu tio Edvard e o Félix, um clássico vira-lata caramelo. Meu avô era apaixonado por cachorros e a família teve uma infinidade de mascotes de nome Caçula. O último destes antecedeu Félix e eu cheguei a conhecê-lo.

Desde a morte do meu avô, o almoço de domingo virou point sagrado, regada a muita polenta, pudim e manjar. Nossa, consigo sentir o gosto de cada uma dessas iguarias na minha boca enquanto escrevo esse texto. <3

Em 1987, chega a vez da caçula se casar, com toda pompa e circustância, num casamento digno de conto de fadas. Minha avó estava felicíssima! Eu não, porque não fui chamada pra ser daminha – o que coube à Quelany – e nem pude participar da hora do buquê, porque era criança – hahahaha.

No ano seguinte, mais uma partida dolorosa. Vera Lúcia e família se mudam para Portugal, onde está estabelecida até hoje, 31 anos depois. Minha avó se debulhava em lágrimas no almoço de despedida. Lembro que durante muito tempo, era um acontecimento quando chegava pelo correio fitas K-7 com Vera, Gustavo e Ramiro relatando como estava sendo a vida lá do outro lado do Atlântico.

Nesse período, eu e Taygoara decidimos que minha avó tinha que arrumar um namorado e ficamos procurando pretendentes pra ela. Ela dizia que queria o Vitor Fazano – hahahaha. Taygoara inventou pra família que ela estava namorando escondido com Roberto Marinho, que ele chegava sempre de noite, escondido. E eu cismava que ela estava com o Leiva (candidato do PMDB à prefeitura de São Paulo na época). Coisas de criança.

Em 1989, além da histórica eleição para presidente, vivida com muito empenho e paixão pela família toda (inclusive o segundo turno aconteceu no dia do aniversário do Edvard, com a família toda mobilizada esperando a contagem de votos. Que nos trouxe o desgostoso resultado de Collor eleito), vivemos um momento sublime, que foi a gravidez da Eliana. Eu e Quelany babávamos naquela barriga que ia crescendo diante de nossos olhos, torcendo para que nascesse uma menininha para empatar o placar, já que éramos em 2 meninas contra 3 meninos na família – hahahaha. Não deu! Nasceu o Kim, o neném mais lindo que eu já vi na vida, e esse de cara se tornou o xodó de todo mundo, com diferença de 11 anos pra mim, 9 pra Quê e 8 pro Taygoara, ele era nosso brinquedo vivo. Minha avó se derretia por ele.

Eu, minha vó e Quê no meu aniversário de 12 anos

Em 1993 foi a vez de Edvard fazer a família crescer de novo, e nasce Eduardo, seu filho clone – hehehe. A vida vai seguindo e em 1995, Eduardo ganha um irmão, Luiz Henrique. Nessa época, me lembro que minha avó estava em Portugal – já era sua segunda ida para lá, mas não me recordo se a primeira vez foi em 1991. Fez uma viagem até Fátima, católica que era, vez questão de ir lá conferir o local de aparição da Virgem. E lá fez uma amiga, Dona Ernestina, com quem se correspondia até bem recentemente (a última carta trocada por elas foi em 2016).

Em 1998, depois de uma enchente daquelas – isso é um capítulo triste e recorrente na vivência da minha avó no Cabuçu – de dar praticamente perda total em tudo, em épocas de eleição, minha mãe toma a frente e traz minha avó pra sua casa (ela fica conosco apenas 10 dias) e logo consegue um apartamento que ficava a 10 minutos a pé da nossa casa, e 2 de carro. Vida nova, ela se sentida realizadíssima, feliz, com sua casa da Barbie, como ela mesma dizia. Do Cabuçu não trouxe quase nada de móveis e eletrodomésticos, mas um sem fim de fotos e lembranças.

Cerca de um ano depois a casa do Cabuçu foi vendida e encerrou um capítulo longo, com passagens felizes e outras tantas muito dolorosas na vida da minha avó.

Morando no apartamento ela ganha novo gás. Sempre apaixonada por plantas e com excelente mão para isso, se dedica ao jardim do condomínio que ficava em frente a sua janela. Inclusive há ali uma palmeira linda que ela plantou assim que se mudou pra lá – ou seja, vovó está imortalizada ali no Maria Miranda. <3

Sempre no pique da Globo, faz suas aulas de dança de salão, e quando ia a festas era sempre a primeira a entrar na pista e última a sair – no meu casamento, ela dançou tanto que eu não tenho sequer uma foto com ela, acredita?

No ano seguinte de sua mudança a família cresce mais um pouco e com brinde duplo. Edvard e Denise trazem para a família Barbosa da Silva suas mais novas integrantes, Lana e Raíssa. Gêmeas idênticas. Uma gostosura só!!! Botando todo mundo pra ficar babando naquelas coisinhas mais lindas. <3

Em 2002, aos 76 anos, começa a fazer a UniSênior – Faculdade da Terceira Idade na UniSantanna. Ia de metrô e ônibus sozinha. Amava!!! Participava de projetos, excursões, viagens, tudo com suas amigas da faculdade. Uma patota muito da animada, diga-se de passagem. Permaneceu indo ao curso até essa maledeta pandemia começar e minha vó se ver obrigada a ficar trancada em casa.

Em 2005 fizemos sua Valsa de 80 anos. Porém, poucas semanas antes, ela adoeceu e ninguém sabe ao certo o que houve, mas ela foi emagrecendo, emagrecendo, emagrecendo. Inclusive, na semana que antecedeu a festa, ela passou 3 dias internada. Chegou a pesar 44 kg, ficou só um fiapinho, desacreditada pelos médicos. Mas aí, a bichinha mostrou que não era páreo para qualquer tropeço da vida, se reergueu, e pouco a pouco foi se recuperando e voltou à ativa.

Dois dias antes de seu aniversário de 80, ela ganhou sua primeira bisneta, Luiza, filha de Téo.

Os anos foram passando, ela seguiu firme e forte, morando sozinha e tocando sua vida sem a interferência de ninguém. Netos foram casando, bisnetos nascendo. E eis que chega 2015 e sua festa de 90 anos. Que ela relatou recentemente como um dos três momentos mais felizes de sua vida.

As três gerações – eu, mãe e vó – as mulheres da minha vida na festa de 90 anos

Ela se sentiu uma verdadeira rainha, curtiu muito, dançou até se acabar e foi o verdadeiro centro das atenções. Filhos, netos, sobrinhos, cunhados, primos, amigos, todos estavam unidos para celebrar a vida desta figura única. E foi tudo do jeito que ela quis e sonhou.

Inteligente, ativa, sempre fez questão de participar de cada momento da vida política do país, e não votou apenas na eleição do ano passado por conta da pandemia. Até 2018, estava lá ela, como boa mãe de preso político, fazendo campanha contra Bolsonaro. Eu sempre a acompanhava até o Angelita, ajudava a fazer a colinha com os números dos candidatos e lá ia ela, toda feliz, exercer seu direito de cidadã.

Nós, prontíssimas para votar, no segundo turno de 2018.

Mesmo com a pandemia, não deixamos de colecionar nossos bons momentos e papos. Sempre sentei para ouvir seus causos, suas muitas histórias de vida, suas traquinagens de infância, seus tempos de mocinha, adorava me contar de como foi cada gravidez e cada parto – eu sei detalhes dos nascimentos de cada um dos filhos. De como cada um deles era. na infância. A gente sempre sentava pra papear. Eu ajudava a montar seus murais de foto que ela tanto amava. Posso assegurar que vivemos tempos de muita qualidade. A cada aniversário, cada Dia das mães, cada Dia da Avó, sempre estivemos juntas compartilhando essa grande arte de viver.

Taygoara, eu e ela em seu aniversário de 94 anos, pouco antes dessa pandemia começar

Nos últimos meses, compartilhávamos também os almoços de quarta-feira, que era o dia que ela fazia sessões com a Giovanna, geriontóloga que passou a atendê-la como presente de Carla, esposa do meu tio Emiliano. Elas faziam exercícios cognitivos e físicos, e eu a acompanhava na execução de algumas tarefas de casa. Posso garantir que tudo que podia aproveitar ao lado da minha vó, eu aproveitei. E que foi muito bom. Ela era metódica, mão-de-vaca, nunca foi muito de curtir crianças (mas amava os netos, e curtia ainda mais depois que já estavam mais crescidos), gostava de tudo do seu jeito, não admitia que ninguém a chamasse de senhora (hehehe) e era teimosa como boa Barbosa. Era linda e encantadora com todas essas nuances, suas muitas qualidades e seus muitos defeitos. Era única e multifacetada. Talentosa, com muito amor pela vida e por cada instante que esta lhe reservava.

Sei que mesmo tendo sido muito dura com os filhos e os netos, ela foi um produto do seu meio, da criação rigorosa e repressora que teve. E que ainda assim, procurou acertar. No meio de seus tropeços, fez o que pode para criar a prole em meio a vida dura que levava. Foi uma guerreira e uma sobrevivente. Uma mulher de muita fibra e de muita alegria para nos legar. Vovó, fique bem, olhe por nós, e saiba que te amo pra sempre.

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