Sad but true

A vida, apesar da insistência de muitos, não tem nada de maniqueísta – seria bem simples se assim fosse. As pessoas não são apenas boas ou más (ainda que existam as imensamente boas e as miseravelmente más), a maior parte tem seus momentos. Às vezes a pessoa mais fofolete que você conhece tem um rompante de grosseria que te deixa desconcertado. Ou então, o Maluf, que é um ladrão, escroto, que afundou com São Paulo, com certeza deve ser um bom marido, bom pai e ser querido pelos seus. Nem sempre quem é mau pra mim é necessariamente uma pessoa má. Assim como quem é bom pra mim, pode aprontar poucas e boas por aí.

Na minha adolescência, andávamos pra cima e pra baixo eu, Carol, Michelle e Karina e a gente brincava que éramos a patota mais odiada do Jaçanã, porque qualquer outro panelinha ali do bairro odiava ao menos uma de nós quatro, e por consequência, acabava detestando as amigas. E os motivos eram bem torpes, como por exemplo a turminha da Jennifer que me odiava porque eu ficava com o Biaggi, um cara por quem ela era perdidamente apaixonada desde os 12 anos, mas para que nunca deu a menor bola pra ela – pronto, eu era uma vaca que tinha acabo com o sonho da garota. Muitas não gostavam da Karina e da Michelle porque elas eram lindas, e por conta disso, aproveitavam pra rodar a banca, tacando um foda-se geral e acabavam pegando os meninos por quem várias outras eram caidinhas. E assim fomos construindo nosso leque de inimizades bairristas. Agora, posso dizer que éramos malditas? Ou então que essas meninas eram umas cretinas? Não, de maneira nenhuma, não. Éramos adolescentes, curtindo a vida. Muitíssimo amigas entre nós quatro, muito unidas e dispostas a tomar as dores da outra, eramos melhores amigas na plenitude da palavra pronta pra defender qualquer uma das outras três com unhas e dentes – e tenho certeza de que isso acontecia nas outras patotas. As meninas eram muito unidas entre si, e cada patota nutria ódio pela outra, mas dentro de cada uma delas, eram amigas sinceras, compreensivas e prontas para encarar qualquer uma que se colocasse no caminho da amiga. Boas ali dentro e bruacas para o mundo externo.

E cada vez mais isso vai ficando patente na vida. O que me faz feliz, muitas vezes vai deixando um rastro absurdo de pessoas tristes pelo caminho. E não que isso seja proposital – até porque, isso não tem nada a ver comigo, não consigo ficar bem se sei que tô prejudicando alguém – mas, infelizmente, às vezes as coisas são assim e ponto. Assim como aquilo que me devasta pode estar deixando tantas outras pessoas radiantes. Um exemplo bem banal disso aconteceu em 2005 – quando rolou o referendo do desarmamento. Eu era super a favor do desarmamento, tenho um milhão de argumentos para defender minha opinião, mas pra ser bem sucinta, acho que já temos violência demais no Brasil para cada um comprar sua arma e querer fazer justiça com as próprias mãos. Mas, ok, isso geralmente dá muito pano pra manga. Já dois amigões meus, o Morph e o Wandeko, são super contra o desarmamento e também tem seus muitos argumentos para defender o ponto de vista deles. E batemos muita boca na época, cada um querendo expor suas visões, pra tentar convencer o outro. E eis que, como todos sabem, o NÃO venceu, e os dois ficaram felizes da vida, e eu fiquei no meu canto, desolada, imaginando qual seria o futuro do nosso país. Esse é um exemplo bem bobo, mas a vida é assim mesmo e coisas desse tipo acontecem o tempo todo em todas as estâncias. Enquanto eu tô dando pulo de alegrias, tem alguém se arrastando miseravelmente pelo mesmo motivo que me faz tão feliz.

E aí? Eu sou escrota por estar feliz, enquanto alguém tá arrasada pelo mesmo motivo? Absolutamente não. A vida é essa. Uns riem, os outros choram, e assim será até o fim dos dias. Só cabe a nós não julgar o caráter de alguém baseado em coisas tão pequenas como essas. É assim que as coisas são, e é uma pena, porque às vezes por conta de uma atitude extremamente pessoal acabam perpetuando uma imagem totalmente equivocada de alguém…

Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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