Respeita a bici…

Hoje, mais uma vez uma ciclista foi atropelada (e morta) nas ruas de São Paulo. Mais uma vez um ônibus na Av. Paulista vitimou uma ciclista e uma pessoa deixou de ser alguém pra virar estatística. O que é uma pena é que o Facebook hoje está explodindo de manifestações de gente se posicionando contra o motorista que atropelou a ciclista, mas raramente, pra não dizer nunca, vejo esse tipo de manifestação em torno das vítimas pedestres e motociclistas, que são muitas também e são muito mais corriqueiras.

Infelizmente os cicloativistas tem um lobby muito forte, tem gente de um status social elevado envolvido com a causa e ela se torna forte, muito mais forte que todas as outras. Vide a morte do empresário que era um dos diretores da Lorenzetti na Paulo VI/Sumaré, que ganhou um super destaque da mídia – sendo que nunca sabemos dos tantos pedreiros, encanadores, operários de fábricas que também usam bicicleta como meio de transporte e acabam morrendo. A bicicleta tem um lobby forte e isso é um fato. Rola denúncia no CQC que os motoristas não respeitam a lei de manter a distância de 1,5m das bicicletas, mas porra, vou te dizer que eu fui da primeira turma de motoristas que fez CFC, estudei direitinho a apostila do Detran, respeito bem as normas de trânsito (independente de multa, porque acho que isso é só consequência) e eu nem sabia que tal lei existia. Isso sem falar que a cidade de São Paulo, e o Brasil como um todo, tem infra-estrutura nula para a bicicleta como meio de transporte, quando tem ciclovia/ciclofaixa é mais como pista de atividade de lazer do que como alternativa de transporte – tanto que a maioria delas só funciona aos domingos. Os governos não se posicionam e nem apoiam esse tipo de transporte, os meios de transporte público não tem o mínimo de integração – é super complicado pra quem anda de bicicleta tomar ônibus, metrô ou trem, e as próprias ruas são super mal-estruturadas para receber a bicicleta no seu dia-a-dia. Eu que ando de bicicleta muito mal não corro o risco, já que não sou habilidosa e sei que os motoristas em geral não respeitam ciclistas, motociclistas e pedestres.

O meu respeito ao ciclista existe, ao mesmo tempo que existe o meu respeito ao pedestre, ou a todo e qualquer cidadão. Pra começar, eu sempre penso que o ciclista é alguém que tá numa posição mais frágil que a minha, que estou protegida por uma armadura de metal, e muito bem equilibrada nas quatro rodas do meu carro. Eu respeito como ser humano, não como ciclista. E acho que o pensamento tem que ser esse, SEMPRE!!!

Agora vamos combinar que, apesar do lobby todo, o que não falta é ciclista, inclusive desses que andam totalmente paramentados, que não respeitam regra nenhuma: andam na contramão, passam em farol vermelho, ficam costurando entre as faixas e se eu for ficar enumerando todas as infrações que sempre vejo os ciclistas cometerem essa lista não vai parar nunca. A questão não é apontar o dedo de que fulano ou ciclano seja culpado, porque o ponto do texto não é esse. Mas a gente tem que parar e ver que, bem ou mal, eles estão numa posição muito mais frágil, por isso deveriam ser os primeiros a se resguardarem. Não adianta fazer manifestação quando morre alguém, colocar ghost bike, pintar bicicletas no asfalto, quando na prática a maioria dos ciclistas não se colocam numa posição eficaz de respeito ao próprio meio no dia-a-dia. O ano passado, eu e o Thi estávamos no Rio de Janeiro, atravessando uma avenida, na faixa de pedestre, com o semáforo de pedestre aberto, quando passaram dois ciclistas, de capacete, roupa apropriada, bicicleta equipada, na contramão, passando no farol vermelho, quase nos atropelam e a mulher ainda teve a pachorra de virar pra trás e gritar: “respeita a bici”. Porra!!! Ali quem estava na posição mais frágil era eu, que era pedestre. E ela estava completamente errada, já que estava na contramão e passando no farol vermelho, e ainda vem gritar pra que eu a respeitasse. E infelizmente isso não é um fato isolado. Aqui na região das Perdizes e Sumaré onde moro é uma região que tem muito ciclista, e eu tenho observado o quanto eles se expõem. Outro dia no farol da junção da Dr. Arnaldo com a Heitor, vi um cruzar as 3 faixas e passar o vermelho e quase ser atropelado por quatro carros. Deu sorte, saiu ileso, mas podia ter acontecido o pior. Mas caso tivesse sido atropelado, quem seria acusado como culpado? O motorista, fato.

Nem tô querendo defender o motorista de ônibus da Paulista hoje, porque eu acho que em geral, os motoristas de ônibus tem uma péssima formação como motoristas profissionais, são mal educados com os passageiros e com os outros motoristas. E acredito sinceramente que ele tem culpa no cartório no acidente de hoje e o fato é que mais uma vida se foi, mais uma família vai chorar e sofrer. Só que eu acho que também cabe aos ciclistas pararem pra pensar como eles devem se colocar diante de um trânsito que é tão ruim, que é desrespeitoso com todo e qualquer tipo de veículo, e que eles mesmos fazem o favor de desrespeitar e se expôr ainda mais. Antes de qualquer coisa, acho que cada pessoa que adotou a bicicleta como meio de transporte deveria parar e pensar se segue as regras de trânsito, porque regras existem para serem seguidas por todos, não apenas pelos veículos motorizados. Quantas vidas precisarão ser perdidas para que todos tomem consciência disso?! Quanto tempo demorará para que passemos a nos respeitar como seres humanos acima de tudo, independente de qualquer tipo de rótulo? Foda-se se a pessoa é motorista de carro, de ônibus, de caminhão, de van, se é motoqueiro, ciclista ou pedestre, antes de qualquer coisa, somos seres humanos.

366/60

Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
Esta entrada foi publicada em Desabafinho com as etiquetas , , , . ligação permanente.

4 respostas a Respeita a bici…

  1. Danilo Salgado Ribeiro diz:

    Embora eu seja ciclista concordo totalmente com você…
    Claro que achei errado as pessoas metendo o pau na ciclista (já morta e sem poder se defender)… Dizem que ela estava discutindo com outro motorista e se desequilibrou e caiu debaixo do ônibus… Na verdade pelo pessoas que viram o acontecimento disseram que o mesmo motorista que ela discutiu foi o que a jogou pra debaixo do ônibus… Eu mesmo já fui fechado e jogado para a calçada várias vezes…
    Não discordo também quando diz que existem muitos ciclistas imprudentes pela cidade.
    A verdade é que falta respeito de TODAS as partes sejam bikes, carros, motos e etc.

  2. Larissa diz:

    Quando acontece essas coisas eu fico muito dividida. Primeiro que concordo com você em tudo que você falou, que os cicloativistas tem um lobby forte, mas que o governo não se posiciona quanto a isso (de bicicleta como um meio de transporte), e quando sim, acontecem essas coisas meio sem pé nem cabeça, que nem a ciclofaixa de Moema. Acho que nesse ponto, as pessoas acabam metendo os pés pelas mãos e pensam: se o governo não faz nada, vou pras ruas mesmo assim, torcendo pra serem respeitadas ou forçando isso. É complicado, porque eu não andaria na Av. Paulista de bicicleta nunca na minha vida, aí você comenta isso, e as pessoas não entendem. Eu vi um cara falando no Facebook isso, que ele é ciclista, e mesmo assim não tem coragem de andar em ruas movimentadas, porque ele sabe do risco que corre.
    Fico muito triste, porque cada vez mais as pessoas são intolerantes umas com as outras. As vezes acho que é um círculo vicioso: o ciclista quase me atropela, eu entro puta no ônibus, sou grossa com o motorista, ele fica nervoso, fecha o carro, que fecha o motoqueiro, etc… Cabe a alguém começar a sair disso, pra parar de se repetir.

    Esses dias, quase fui atropelada por um ciclista, e eu estava atravessando na faixa, com o farol verde pra mim! Quer dizer…

    • t4yra diz:

      Pois é, é bem isso, do círculo vicioso mesmo. Mas é o que eu disse, não é questão de apontar o dedo e dizer que fulano é culpado, ciclano não é. É questão de botarmos a mão na consciência e nos respeitarmos mais como seres humanos, independente do veículo (ou da falta dele) que estivermos usando.

      Esse lance de você quase ter sido atropelada pelo ciclista é a história que eu citei dos ciclistas no Rio, eu, na faixa, com o farol aberto pra mim. Eles na contramão e ainda gritam: respeita a bici… O que me incomoda é que alguns grupos começam a achar que estão acima do bem e do mal, e pra mim isso tá um pouco acontecendo com os ciclistas. =/

      As regras estão aí para serem respeitadas, por todos, não só por alguns. Elas não estão para fazerem a nossa vida mais chata, e sim mais ordeira, correta, e algumas pequenas atitudes, de dar uma passagem a um pedestre em uma rua sem sinalização, coisas pequenas como essa, fazem um trânsito e uma vida mais gentil.

  3. Breno diz:

    CLAP CLAP CLAP!
    Me dá uma caneta que eu assino embaixo.

    E além do mais, existe a tal lei que o motorista tem que respeitar 1,5 de distancia do ciclista. E o ciclista, não tem que manter uma distancia do carro tb? Vejo muito ciclista que se enfia entre os carros, isso é muito complicado, pois as vezes o ponto cego impede a gente de enxergar carros, imagine biciletas então.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s