Não podemos esquecer. Não podemos fingir que não existiu…

Muita gente que me conhece sabe, porém muita gente não faz nem ideia, mas eu sou filha de preso político. Minha mãe conheceu meu pai na cadeia, quando ia visitar seu irmão, que também era preso político. Eu nasci no ano da Anistia. Eu sou um produto de gente que lutou por um mundo mais justo, que se entregou, que abriu mão de muita coisa e sofreu pra que a gente hoje pudesse ficar twittando tudo quanto é merda que nos passa pela cabeça, pra poder xingar o Kassab, o Alckmin, o Lula, a Dilma ou quem nos der na cabeça. Pra chegarmos nesse ponto, muita gente morreu, apanhou, foi torturada, violentada. E não podemos fingir que nada disso aconteceu.

O pior é ouvir gente falando que: “ai, eu acho que exageram quando falam a respeito”; “não aguento mais essa modinha de filmes falando sobre ditadura, já encheu o saco”; “tinha ditadura, mas pelo menos a gente tinha dinheiro e o país funcionava”. Gente, isso é parte da história do nosso país, um dos períodos mais nebulosos e tristes, a inflação era galopante, usava-se tudo quanto é artifício, inclusive o futebol, para tapear a população e fazer com que muita gente acreditasse que vivia em períodos de calmaria.

Enquanto isso muita gente (jovens em sua maioria) estavam lutando por liberdade, por igualdade, por justiça, por não concordar com o regime imposto. Alguns com armas na mão, outros de maneira pacífica, muitos inclusive ligados à Igreja Católica, cada um do seu modo, se colocando contra o governo. Meu pai, além de apanhar muito, teve seus dentes arrancados com alicate, o círculo de amigos dos meus pais, com os quais convivi na minha infância é todo formado por presos políticos, sempre ouvindo todo o tipo de história dos anos que eles passaram presos, desde as mais tristes às mais lindas, já que eles formaram uma grande família lá dentro e são amigos até hoje, mesmo 40 anos depois. Cresci ouvindo nomes como Fidel Castro, Che Guevara, Mao Tse Tung, Lamarca, Marighella, Tróstski, Lênin, Stálin, Clara Charf, Iara Iavelberg…

Por conta de tudo isso e todas as histórias que sempre ouvi, e apesar de saber o quão atroz o ser humano pode ser, eu cresci tendo muita fé nas pessoas, acreditando que a humanidade pode ser muito melhor e que só depende da atitude de cada um de nós. E hoje muitas pessoas se mobilizaram num levante que já ficou conhecido em outros países da América Latina como Argentina e Chile como “escracho”, onde os manifestantes se unem para expor os torturadores que hoje vivem por aí, como pessoas comuns, se comportando como pais e avós zelosos, sem que seus familiares, vizinhos e gente que convive com eles saibam das monstruosidades que eles já praticaram no passado. E eu acho que isso é uma espécie de missão nossa para com a sociedade.

No meu TCC eu e meu grupo acabamos fazendo um documentário sobre Marighella, e nele o Aton Fon diz uma frase linda:

eu tenho orgulho de sair na rua e dizer: eu fui um guerrilheiro da ALN. E um torturador? Ele sai por aí dizendo: ‘eu fui um torturador do DOI-CODI’?

Na época do documentário, que foi rodado em 2005, eu fiquei muito feliz, que, pelo menos na Metodista, muita gente que nem imaginava quem era Marighella (e que pronunciava Marigéla) ficou sabendo mais a respeito desse grande homem, se interessou mais sobre o assunto e naquele momento, senti um pouco o gostinho de missão cumprida. Mas hoje, sete anos depois, nessa era de redes sociais, fico vendo a imbecilidade imperando no Twitter e Facebook, onde as pessoas sempre sabem apenas a superfície e já se acham entendidas no assunto, ficam palpitando e julgando sobre tudo e mais um pouco e sinto que o mundo está emburrecendo. E num dia como hoje, com um assunto tão sério em pauta, pela minha história de vida, eu não poderia deixar que isso passasse em branco. Se isso servir de reflexão para pelo menos uma pessoa que passar por aqui e ler isso, já me sinto satisfeita. Só não podemos ficar ouvindo gente dizendo que tá de saco cheio de ouvir falar do assunto, fingindo que as coisas não aconteceram, que não há gente até hoje com familiares desaparecidos, que não tiveram nem mesmo a oportunidade de reconhecer seus mortos… Guardadas as devidas proporções é o mesmo que falar que não aguenta mais ouvir falar do nazismo. Essas nódoas da humanidade existem, são horríveis, tristes, mas não podem ser esquecidas. Temos que fazer a nossa parte para que elas tenham o destino mais justo possível. E eis o meu desabafo…

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Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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Uma resposta a Não podemos esquecer. Não podemos fingir que não existiu…

  1. marivone diz:

    Conheço gente que nem quer saber sobre a Ditadura por pura preguiça de história e, sim, já ouvi comentários como esses que você citou entre aspas. Em um blog conhecido já li uma menina comentar o seguinte: “Triste essa Dilma ter se envolvido com coisas como a Ditadura. Acho isso terrível”. Resumo: ela nem sabe qual foi o papel de Dilma durante a ditadura… No mínimo, pelo comentário, acredita que ela era um dos carrascos e não o contrário. Então, o problema do país, dos jovens e dos blogueiros é a total falta de responsabilidade política/histórica, e a total falta de conhecimento sobre o próprio país. Um problema sério do país também é a total imagem deturpada do que vem a ser o Estado Mínimo (pregado pelos americanos que hoje, quem diria, estão quebrados e devendo ao resto do mundo) versus o Bem-Estar Social (que o Brasil tanto preza, tanto protege com sua Constituição e agora vem se mostrando dar certo. A curto passo, mas vai…). Amei seu post! Abraço! ;)

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