Reaça me dá medo

Tem horas que nem mesmo um bom “puta que me pariu” dito em alto e bom som conseguiria aplacar a raiva que me consome por dentro. O meu irmão sempre fala que Deus dá audição, mas cobra caro. Em tempos de redes sociais acho que esse ditado do Taygoara se aplicaria muito bem para a visão também, porque eu sou obrigada a ler cada coisa por aí, que certamente é Deus cobrando muito caro pela visão que me deu um dia.

Num mundo como o de hoje, mesmo sendo filha de presos políticos e tendo respirado política desde que comecei a engatinhar – com 3 anos estava indo de cavalinho com meu pai nas passeatas das “Diretas, já!”, com 13 estava vestida de preto pedindo o Impeachment do Collor, sonhava em fazer 16 anos para poder votar (tirei o título no dia do meu 16º aniversário, mesmo não sendo ano eleitoral), ingressei na faculdade de História apaixonada por todo esse mundo, fiz um documentário sobre Marighella como TCC e sou inegavelmente uma pessoa de esquerda com tendências socialistas e que de verdade acredita num mundo mais igualitário – acho simplesmete um absurdo pessoas que dizem não gostar e não se importar com política. Nossa vida é política, o bombom que comemos está repleto de política, o seriado americano que você assiste é envolto em política, tudo no mundo é política. Por isso não há como fingir que a coisa não é com você.

E, estamos num momento de liberdade de expressão, onde cada um pode mostrar o que quer, o que pensa (e também aguentar os trancos decorrentes disso!). E não sou nem um pouco intolerante, por incrível que pareça tenho um amigo do peito que é de direita (né, Andrezinho!). Mas a pessoa tem que ter um mínimo de embasamento para ser de direita, e saber defender seus ideais. Agora ser porque é, isso não existe. Não consigo respeitar alguém que fala: “ah, eu gosto do Maluf, porque ele rouba, mas faz!”. Ou então: “eu gosto do Vargas porque minha vó tinha um retrato dele na parede”. Acho que cada um tem seu direito de ter sua tendência política, mas acho que o mínimo é que você vá atrás de estudar, de conhecer melhor as coisas, antes de idolatrar uma pessoa ou ideal.

Falo isso com uma faculdade de História e uma caralhada de livros na minha bagagem, que me fizeram ver que eu de fato concordo com muitos dos ideais dos meus pais, mas, ainda assim, discordo de muitas coisas com as quais eles concordam. Somos todos de esquerda, mas com maneiras muito diferentes de encarar o mundo. Cresci tendo como ídolos Che Guevara, Fidel Castro, Lamarca, Marighella, Prestes, Lênin, Marx. E a faculdade de história me ensinou coisas da vida deles que eu jamais imaginava, e acabou fazendo com que eu tirasse Prestes e Fidel Castro dessa lista. Li sobre a infância deles, e me surpreendi com mila quantidade de coisas que eu não sabia a respeito de cada um deles, e que na idolatria dos meus pais, eles nunca trouxeram até mim.

É claro que nossos pais serão sempre ídolos e modelos para gente, mas chega uma fase da vida que a gente percebe que nem tudo que eles falam é verdade absoluta. Não dá pra ser reaça e bater no peito defendendo pena de morte, liberação das armas e tantas outras coisas tão sérias, só porque papai e mamãe falaram que era certo. Afinal de contas eles também nos falaram que Papai Noel e Coelhinho da Páscoa existiam. Pensem nisso e tomem as rédeas de sua vida e de seus pensamentos.

Vale lembrar que também respeito quem é direita e saiba se expressar, saiba defender seu ponto de vista e não venha com aquele blá-blá-blá vazio, vomitando discursos prontos. E isso serve pros esquerdistas da moda também, porque o que não falta é gente usando camiseta de Che Guevara por aí e nem mesmo sabe um A da vida do cara e se bobear ainda vota no Tiririca. Tem gente que adora gritar uma palavra de ordem, mas na prática não move uma palha para mudar o mundo em que vive e aí se mostra indignado quando tem gente que se manifesta e vai lá fazer algo para tornar essa vida um pouquinho mais justa e digna. Por que é que incomoda tanto a esse povo gente que tá lá lutando pelos seus direitos? Gente que inclusive tá levando bordoada da polícia pra que as coisas sejam mais justas para todos. Fazer revolução de sofá, criar hashtag no Twitter, mobilizar neguinho pra conseguir sei lá quantos milhões de curtir ou compartilhamentos no Facebook de nada adianta se não tiver gente que vá pra rua dar a cara pra bater. E quase sempre são esses revolucionários da internet que mais se posicionam contra quem bota a mão na massa, porque coerência não faz parte do vocabulário e da lógica de raciocínio dessas pessoas. Triste e lamentável…

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Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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4 respostas a Reaça me dá medo

  1. joiceg diz:

    Texto muito bem escrito. Apesar de eu não gostar de “política” kkkkkkk. Eu sei foi justamente isso que vc disse, Eu não gosto, mas não fico alienada, presto atenção em tudo o que acontece nesse mundo. Eu acho que eu não gosto é de discutir, ou quando discuto sobre isso, discuto com um número reduzido de pessoas, pq esse lance do Maluf sempre sai pra me irritar no meio da conversa! ahahahhahaha

  2. joiceg diz:

    Apesar de não curtir política…. ahahahhahahahhaha. Então, achei o texto muito bem escrito, e procuro prestar atenção em tudo o que vc publica, embora vc não saiba. Não gosto muito é de discutir sobre isso. Porque política e religião sempre geram discussões sem noção. E eu detesto discutir com gente sem noção. Acho que nesse aspecto vc é mais “briguenta” do que eu, se é que posso chamar uma pessoa como vc Tay, que tem argumentos de sobra de “briguenta”. Enfim, vou refletir mais sobre tudo isso que você disse. Perceba que esse coment foi bem político! (kkkkkkkkkkkkkkkk)

  3. joiceg diz:

    foi meu coment? minha segunda tentativa aqui e nada.

  4. Leka diz:

    Reaças também me dão medo. Das dezenas de blogs que eu tenho adicionados no meu feed, de blogs feministas, pessoais, de tecnologia, de beleza… Senti vontade de vir aqui nesse, deixar um comentario, talvez porque role um pouco de identificação… Quem milita ou militou, quem tem uma formação um pouco diferenciada, que leu, que sentiu, que tem a sementinha revolucionária plantada dentro de si, as vezes fica sem paciencia. É como eu me sinto, tenho problemas sérios em lidar com as pessoas, tenho problemas sérios em lidar com tanta futilidade, não consigo ter paciencia, é muita gente dizendo a merda que quiser, e todos nós lutamos por isso né, agora ter paciencia é fundamental. o que eu vejo de revolucionarios de facebook de orientação facista – sério – não dá pra contar nos dedos. sem contar o básico – tenho tristeza em dizer que isso é o básico – que é homofobia, racismo, xenofobia… e tudo isso envolto em uma grande aura de futilidade. As vezes eu me sinto um pouco fútil, mas fico feliz em perceber que me dou conta de que estou sendo fútil (há de ser um bom sinal, né não?). Quantas vezes não fui xingada pelas pessoas do ponto de onibus por ter parado as ruas por conta do aumento da passagem? que me disseram pra “ir trabalhar”, com uma imagem tão romantica do trabalhador, religiosa até. coisa engraçada. Hoje em dia se paramos uma rua por conta de um protesto, será que me xingariam muito no twitter? haha. Quem não gosta de política, geralmente não sabe o que isso significa, não entende as implicações da política na sua vida, não to falando da rua que o vereador x asfaltou e que fica proxima da sua casa (Isso sim mudou sua vida, hein?) to falando da abertura para o neoliberalismo, da ascenção do PT ao poder, do que isso significou para os movimentos sociais… é tudo tão macro que fico irritada com pensamentos tão micro

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