Me ufanando e sofrendo

Hoje é aniversário do Brasil, o país completa 512 anos de seu descobrimento e eu não vi ninguém falando um A a respeito em lugar algum. E é triste que a gente vê em pequenos momentos como esses o quanto não temos nenhum sentido de nação, as pessoas não se orgulham do País e nem fazem nada por ele, para melhorá-lo, nem mesmo mostrar que sentem algum tipo de orgulho (só se lembram disso na época da Copa, e talvez em Olimpíada se algum atleta levantar um ouro).

E eu nem aguento mais chover no molhado quando toco nesse assunto, porque algo que me dói como uma ferida aberta e que não me entra na cabeça… Na sexta-feira mesmo, eu e o Thi fomos fazer a cobertura do show da Demi Lovato e saímos duas músicas antes do show acabar e vimos uma situação que é o retrato disso que eu falo: os pais que foram buscar seus filhos no show fecharam a saída da Ponte Transamérica na Marginal do Pinheiros, fazendo fila de carros para aguardar seus filhos e tumultuando o trânsito de toda a região. Tinha uma ambulância atrás de mim, que mesmo eu subindo no canteiro, não conseguiu passar, teve que subir pelo canteiro e depois pela contramão para prestar socorro. Depois de quase 40 minutos para conseguir sair da ponte, quando passei em frente ao Credicard Hall, vi que a situação era ainda mais desrespeitosa e degradante do que a fila que se estendia a mais de meio quilômetro, pois tinha gente parando o carro com pisca-alerta na pista expressa da Marginal e indo esperar a filha no canteiro. Agora me diz: 1 – como uma pessoa dessas quer ter dignidade e coerência pra cobrar políticos mais honestos e um sistema que funcione melhor se na primeira oportunidade que tem ele faz valer o seu e que se foda o resto?; 2 – que exemplo um pai desses está dando para os seus filhos?

E o pior é que é isso, um legado. O pai se comporta sim, o filho se espelha, o comportamento se perpetua e é assim que surge o famoso “jeitinho brasileiro”. É neguinho que fura a fila e não vê nada demais nisso; que quando pega trânsito na estrada segue pelo acostamento, achando que é mais esperto que os outros; que sempre tem um conhecido aqui e outro ali pra burlar uma regra ou encurtar um caminho (para tirar um registro, um passaporte, conseguir uma certidão) e acha que tá tudo certo; que pega nota de refeição com “dezinho” a mais pro patrão pagar; que na hora do embarque sai correndo quando chamam os idosos, crianças e pessoas com necessidades especiais, mesmo sabendo que o vôo só vai sair depois que todo mundo embarcar e que aquela correria só revela sua escrotidão; e mais um sem fim de comportamentinhos escusos no dia a dia que revelam uma verdadeira chaga no nosso caráter e que as pessoas vão passando pra frente, primeiro achando que não tem nada demais, segundo, pregando que quem não faz essas coisas é que otário.

E eu me recuso terminantemente a embarcar nessa – sou daquelas que no engarrafamento na estrada ainda deixo metade do carro no acostamento, pra que os espertinhos saibam que o atalho deles acaba atrás de mim. Posso até ser chata pra caramba com esse meu blablablá, e tenho uma porrada de defeitos, mas posso bater no peito e garantir que o meu discurso casa sempre com as minhas atitudes. Eu nunca falo uma coisa e faço outra e meus atos são todos muito coerentes com aquilo que penso e prego. E pode parecer uma coisa de Don Quixote lutando contra os moinhos, mas eu não vejo motivos pra me corromper só porque “todo mundo faz”. Até porque eu sei que não é todo mundo que faz, mas sempre a parcela podre da coisa mancha todo o restante.

E num dia como hoje, aniversário do nosso país, vejo que o amor pelo Brasil, o sentido de nacionalidade, está cada vez mais perdido, e as pessoas só gostam de se lembrar daquilo que tem para se envergonhar quando se reverem a sua própria pátria. Mas, pôxa, a gente tem tanta coisa fantástica. E isso partindo desde a natureza linda e estonteante, até os tantos talentos do nosso cotidiano, gente que se vira e sempre dá seu jeito. Tem aquele cara semi-analfabeto que é um artista e faz xilogravura de literatura de cordel, tem repentista, tem violeiro e tocador de berrante. Tem os poetas anônimos, tantos e tantos talentos verdadeiros na nossa música (que é riquíssima e vai muito além dos Michel Telós da vida que cismam de exportar), uma literatura maravilhosa com grandes romancistas e poetas. Tem tanta coisa linda, tanto talento latente, tanta coisa boa a ser explorada… Ainda assim, o pessoal prefere viajar pro exterior e voltar falando como as coisas fora daqui são maravilhosas e funcionam, como o povo vai pra Disney e deixa tudo no carrinho de bebê do lado de fora da fila e ninguém rouba, como os motoristas respeitam pedestres, ciclistas e todas as regras… E aí, essas pessoas não param pra pensar que um país é feito de gente, de pessoas, de cidadãos, e que ter um país (um bairro, uma cidade, um estado e um mundo) melhor cabe a cada um de nós e começa sempre com mudanças pequenas de atitude. Com dar bom dia aos porteiros de prédios, motoristas de ônibus, faxineiros da empresa onde você trabalha. Com não jogar lixo na rua. Com dar passagem ao pedestre, mesmo que você esteja com pressa. Com separar o lixo reciclável. São coisas pequenas que refletem num todo melhor, mais harmônico e que funciona de fato. Cabe a cada um de nós brasileiros tomar pra si o sentido de nação, melhorar nossas atitudes e com isso fazer desse um país muito mais incrível. E não adianta dizer que isso não resolve, que tem os políticos corruptos que blablablá whiskas sachê, porque, afinal de contas, quem elege e bota esses políticos no poder somos nós e mudar de atitude significa inclusive honrar seu voto, pesquisar sobre o candidato em que você pretende votar e depois acompanhar seu mandato – até mesmo para poder cobrá-lo. Lavar as mãos e depois dizer que tá tudo errado é muito fácil, né!

Feliz aniversário Brasil, que seus habitantes tomem consciência que só cabe a eles fazer de você o “paraíso na Terra” que o seu nome representa. ;)

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Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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4 respostas a Me ufanando e sofrendo

  1. Carina diz:

    Realmente… muita gente por aqui sempre gosta de dar uma de “espertinho”, sempre tem algum conhecido que burla o senso comum, e grande parte do povo além disso é muito, extremamente mesmo, folgado e sem senso de respeito ao próximo (e a si próprio). Infelizmente, é esse povo que faz a pátria e é esse povo que elege nossos políticos e depois reclama, e mais infelizmente ainda é que nós fazemos parte disso… Enfim, se eu for ficar pensando sobre essas coisas realmente me revolta, mas pelo menos eu sei que minha parte eu faço.
    Excelente post, a propósito. :)

  2. Avalizo totalmente seu post, brima. Tb sou desse tipo que se irrita absurdamente com as coisinhas que as pessoas fazem, como jogar lixo na rua ou pela janela do ônibus, desrespeitar o trânsito, não ceder o lugar a idosos, embolsar o troco a mais que o coitado do caixa deu. As pessoas ficam na posição confortável de reclamarem de tudo, mas o que elas fazem pra que o tudo melhore?
    Qd vejo alguém jogando lixo na minha frente, faço questão de pegá-lo do chão e devolver à pessoa, e com a maior cara-de-pau e cinismo dizendo que ela deixou cair algo. É meio que um prazer orgasmático (??) ver a cara de revolta dela comigo, querendo é meter a mão na minha cara, rs. É que nem o negócio de bloquear o acostamento. Adoro fazer marra com gente escrota ;)

    Infelizmente o Brasil é reflexo dos próprios brasileiros. Todo mundo põe a culpa nos políticos mas aposto que a maioria da população, se estivesse no poder, também se corromperia com a desculpinha do “ah, é só um milhãozinho, não vai fazer falta pra ninguém”. Antes que mudem os políticos, é preciso que mudem os brasileiros. Se a sociedade passar a se respeitar e ter um sentimento de união, de zelar não só pelo que é seu mas também pelo que é dos outros, o reflexo será políticos eleitos em benefício do povo, não deles mesmos.

    Longe de mim querer isentar os políticos atuais (e anteriores) dessa safadeza toda, mas o buraco é mais embaixo. Quando digo que o câncer do Brasil é o próprio brasileiro, nego olha torto pra mim. Paciência…

    Esse trecho de um famoso texto diz tudo:

    “Pois bem, se mexeram comigo,
    com a velha e fiel fé do meu povo sofrido,
    então agora eu vou sacanear:
    mais honesta ainda vou ficar.
    Só de sacanagem!

    Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” e eu vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

    Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.
    Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
    Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.
    Eu repito, ouviram? IMORTAL!
    Sei que não dá para mudar o começo
    mas, se a gente quiser,
    vai dar para mudar o final!”

    Enfim… desculpe pelo longo post, rs. É que esse assunto também me tira do sério.

    • t4yra diz:

      Magina, amei o comentário e me dá uma alegria quando vejo que não tô sozinha nessa batalha. :)

      Eu não gosto de dizer que o problema é do brasileiro, porque é o que eu falei, a questão é que a banda podre sempre salta aos olhos e a gente esquece de ver o quanto tem gente legal por aí. Mas eu concordo com tudo, e sempre falo, se nêgo passa pelo acostamento, se é deputado vai desviar verba, a pessoa tem desvio de caráter pra coisa pequena, então vai ter pra tudo…

      Mas eu não desisto, uma hora a coisa muda. ;)

  3. Patricia diz:

    Eu também não comemoro o descobrimento do Brasil, até por que o Brasill não foi descoberto. Ele foi invadido, saqueado, teve sua cultura desrespeitada, teve seu povo escravizado humilhado !!!! Mas concordo com TUDO o que você disse, hoje mesmo coloquei no meu facebook que o feriado do dia de São Jorge é totalmente ilegal, mesmo sendo regional. Se o país é laico, não pode e ponto. E as respostas que tive “Ah, mas quem liga a gente não trabalha !” Eu ligo, ligo mesmo invade o meu espaço de cidadã, desrespeita as outras tantas religiões existentes aqui no Brasil !!! Mas as pessoas querem saber é de levar vantagem, se tá beneficiando a ele tá tudo certo !
    Tenho nojo e pena de gente assim ! E ainda falam mal de mim por que eu exijo o meu direito de cidadã !
    Como sempre mandando bem nos textos, adorei !!!!

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