Meu maior exemplo

No dia em que eu nasci, conta-se que depois de minha mãe sofrer com as dores do parto desde o dia anterior, quando resolvi dar o ar da graça às 10 da manhã daquele 05 de março de 1979, saíram pra informar ao meu pai que era uma menina. Ele, que até então estava tenso com a possibilidade de ser um menino e ter de refazer toda a pintura do quarto que era branca e rosa, ficou embasbacado. Como estava sozinho lá no Hospital do Servidor, decidiu catar o carro e ir até a casa de alguém pra compartilhar a novidade e a empolgação do primeiro filho. Com um trânsito lazarento (não é de hoje que os engarrafamentos de São Paulo são de lascar), a primeira pessoa que ele encontrou foi um guarda de trânsito. Mas ele tava feliz, não tava nem aí, puxou o marronzinho e soltou: “seu guarda, minha filha nasceu”.

E foi assim que começou a nossa história. Ele tava maravilhado com a experiência de ser pai, fez até um registro diário contando tudo da minha vida – o que eu comi, o quanto engordei/cresci, qual roupinha vesti, todos os progressos: primeira palavra, primeiro passo etc. – como eu já contei aqui antes.

E olha que eu nasci branquinha, depois fiquei loirinha de cabelo cacheado e que todo mundo olhava com estranheza, sem saber que aquele cabelo era herdado do meu vô, pai dele. Depois o cabelo escureceu e alisou, e dele eu só herdei mesmo o nariz, a testa e a minha mão (formato, unhas, textura seca – é tudo igual!), e virei uma mini cópia da minha mãe.

Sempre tivemos uma relação muito legal. Uma das minhas lembraças mais marcantes da infância é do dia em que fiz 6 anos, ele me deixou faltar a aula e me levou pra trabalhar com ele (coisa eu sempre adorei!) e fomos almoçar fora e ele me levou pra comer um sorvetão que vinha com wafers espetados. :)

Acho que essas tantas visitas ao trabalho do meu pai lá na Unipress foram determinantes na minha escolha pelo jornalismo – eu amava ficar “datilografando” naquelas máquinas de escrever. Quando eu tinha 14 anos, comecei a trabalhar com ele, como uma espécie de secretária, isso foi bem na época que os CEPs mudaram de 5 pra 8 dígitos e eu me lembro de ter atualizado um mailing imeeeenso. E logo depois passei a auxilia-lo na revisão do jornal, o Notícias da Oficina, onde trabalhei pelos 12 anos seguintes – e amava. Como patrão e empregada tivemos vários arranca-rabos (não é nada fácil trabalhar com o pai e saber separar as estações, viu!).

Sempre tive uma admiração muito grande por ele, pelo ser humano íntegro e de caráter irretocável. Isso sem falar na admiração profissional, porque ele sempre foi um jornalista exemplar, dedicado, dando o sangue por aquilo que fazia e acreditava.

Não dá pra fingir que vivemos num mundo perfeito e que ele não tem defeitos, afinal de contas todo mundo tem, e ele não é diferente – pelo contrário, carrega uma extensa lista deles. Porém, o importante é que nenhum deles é de caráter, daqueles imperdoáveis. No fim ele é mesmo um teimoso incorrigível e cheio das suas manias, mas fora isso, é uma pessoa fantástica. E claro que na adolescência além da rebeldia típica da idade e aquela gana de bater de frente com os pais, ainda tinha o fato de que ele era o meu chefe. Resultado: material altamente inflamável. A gente teve uma série de quebra-paus homéricos, brigas feias, de bater porta, de ficar sem olhar na cara, afinal meu DNA é resultado de duas personalidades fortíssimas. Já viu, né…

Quando cheguei na fase de apresentar namorados em casa, apesar de não admitir, ele revelou sua faceta ciumenta. E a cada namorado iniciávamos uma batalha velada, onde ele encontrava motivos mínimos pra pegar no meu pé e me atacar. Até ele se acostumar com a figura de um homem ao lado da filha passávamos dias muito turbulentos, até enfim, chegar a calmaria.

E depois que eu saí de casa, ele foi o que mais sentiu e demonstrou o quanto sentia a minha falta, é quem me liga quase que diariamente, quem aparece pra fazer visitas surpresas…

Esses 33 anos que passamos juntos foram lotados de turbulências, mas pontuados o tempo todo por ótimas lembranças e marcos. As brigas sempre caminharam lado a lado de muito companheirismo e dia após dia eu fui construindo uma admiração profunda pelo meu pai. Fico muito feliz por saber que temos essa relação e que tenho esse pai fantástico, porque eu estou cercada de pessoas que tem sérios problemas com seus pais e algumas inclusive são rompidas com eles. E isso é algo inimaginável pra mim, porque eu e meu pais somos muito amigos, temos uma relação muito legal e transparente e vejo ele como um grande modelo de conduta.

Hoje, 12 de junho, ele completa 63 anos e eu acho muito difícil traduzir em palavras o quanto eu o amo e desejo coisas boas pra ele a cada dia que passa. O que eu desejo, de verdade, é que eu consiga ser ao menos metade do ser humano exemplar que ele é e que tantas outras pessoas no mundo possam ter um pai tão legal quanto eu tive. Pai, feliz aniversário com todo o meu amor.

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Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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2 respostas a Meu maior exemplo

  1. Nossa, Tay… li teu post e me identifiquei completamente.
    Casei no sábado né, e não está sendo nada, NADICA fácil me desgarrar da minha casinha, dos meus pais, até das minhas irmãs barulhentas. O casamento está sendo maravilhoso, tudo lindo, mas eu choro um pouquinho todo dia – saudade e mudanças são tão difíceis né?!
    Quem mais me impressionou nesses últimos dias foi meu pai, que é super parecido comigo, e o gênio dele e o meu também não são nada sossegados… Mas ele se mostrou tão carente como eu… Meu pai também é cabeça dura, mas é meu exemplo, meu guia. A gente troca cabeçada, mas não tem jeito. Amo ele com todos os defeitos, gênios e personalidade.

    Parabéns pro teu pai, que deve ser tão amor quanto o meu ^^

    • t4yra diz:

      Você vai ver que a carência diminui e você se adequa à vida de casada rapidinho, mas a saudade vai ficar sempre. Se bobear, seu pai vai ser como o meu, vai ligar todo dia, aparecer de repente pra uma visitinha pra matar a saudade. Mas é muito bom sabermos que temos pessoas tão especiais junto conosco, pro resto da vida. <3

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