Sobre perdas com as quais não sabemos lidar…

É engraçado quando perdemos alguém e não vemos o corpo, parece que a gente não registra muito bem a morte, né! Quando eu tinha 16 anos, uma amiga do ballet morreu, a gente tinha uma apresentação no dia seguinte à morte, por isso eu não fui nem ao velório e nem ao enterro, mas o espetáculo foi dedicado a ela. Foi muito doído pra todo mundo, mas eu ficava vendo ela em outras pessoas por aí, nos locais que a gente costumava se encontrar fora da academia. Doido isso, né!

Eu perdi uma pessoa que fez parte da minha vida toda, mas quando isso aconteceu, a mãe dela ficou tão “em alfa” com a coisa toda, que não chamou ninguém pra velório e enterro, e eu só soube do acontecido semanas depois. E até hoje vejo ela por aí, em outros rostos. No domingo, eu tava voltando do Rio pra São Paulo quando olhei e a comissária de bordo era a cara dela, mas tão parecida que eu olhava de relance sempre que podia, para conferir se era ela mesmo.

Nossa história começou em 1982, uma com 3 anos, a outra com 2, cada uma com seu irmão, com menos de 1 ano de idade. O pai de uma e a mãe da outra, colegas de profissão, calharam de trabalhar na mesma assessoria de imprensa, a Unipress, grande ícone do setor nos anos 80. De colegas, viraram grandes amigos, e o mesmo aconteceu, por tabela, com os filhos, que cresceram juntos. Eramos eu com 3 anos, ela com 2, meu irmão com 3 e o irmão dela recém-nascido. Tanto que nas épocas dos cadernos de perguntas/enquetes lá nos anos 90, sempre tinha aquela pergunta: “De onde você conheceu a Tayra?”, e ela sempre respondia: “conheço ela desde que me entendo por gente”.

Reunidos em finais de semana no parque, festinhas de aniversário, gincanas de Dia das Crianças, caça ao tesouro na Páscoa, e mesmo na maratona de pedir doce de porta em porta, quando Halloween nem era moda no Brasil. As duas meninas, mais velhas, chefiavam sempre seus irmãos-caçula e se metiam em várias enrascadas. Além disso trocavam pilhas e mais pilhas de papel de carta, e juntas tinham uma coleção que formava quase um milhar.

De crianças, cresceram, e na adolescência partilharam muita coisa uma com a outra, o primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira briga de amor, os cadernos de enquete (citados lá em cima), o gosto musical (eram das poucas adolescentes amantes de MPB) e sempre faziam questão de participar das rodas de violão, organizadas por seus pais. Faziam planos para um futuro, que ambas previam que seria brilhante, muitos filhos, que assim como elas, brincariam juntos e dividiriam aquela amizade tão grande.

Uma era uma excelente estudante de inglês, que contava os meses para partir em intercâmbio e se tornar a mais brilhante professora da língua britânica, a outra dançava por qualquer canto, e gastava muitas horas do seu dia em treinos e ensaios e se imaginava a nova Margot Fonteyin. Uma era uma são-paulina pró-forme, a outra uma palmeirense doente, com pôsteres de Edmundo e Veloso para tudo quanto é lado.

Cresceram, viajaram muito juntas, e numa dessas viagens, perceberam que, apesar do carinho, tinham uma vida muito diferente pela frente. Uma se embrenhou para o lado do metal, e começou a andar com aquele povo cabeludo que só se veste de preto, a outra se manteve amante da MPB e continuava dançando por aí. E desde essa viagem, apesar da grande amizade que havia entrea as duas e de toda uma vida compartilhada, viram que, naquele momento, não adiantava muito continuarem andando juntos, pois ali, naquele ponto, não tinham muito que dividir uma com a outra além do passado incrível que tiveram juntas.

Os pais continuaram amigos e se vendo sempre, as duas, porém, se falavam através de cartas, e-mails, msn – posteriormente, Orkut – e nunca esqueciam do aniversário uma da outra, ou mesmo de mandar um cartão bem bacana no Natal.

A vida foi em frente, a bailarina virou jornalista, a professora de inglês virou designer gráfico e a vida seguia andando. A bailarina se apaixonou de verdade e acabou casando, e a designer, apesar de não ver a amiga há mais de 5 anos, esteve presente nesse dia tão especial, dizendo que nunca seria capaz de perder aquele momento. Foi um dia feliz, para ambas.

Alguns meses se passaram depois desse dia e chegou a Páscoa, o tão esperado feriado dos chocolates (especial para essas duas amigas que tinham mais uma coisa em comum: eram chocólatras!). No sábado que antecede a tão esperada troca de ovos, ela recebe um telefonema de seu pai, dizendo que precisava vê-la. Ela vai até a casa do pai e ele diz que recebeu a notícia mais triste daquele ano de 2009 (ainda que ele estivesse só no começo) – a amiga, de tanto anos, tinha decidido viajar sozinha, alugou um quarto de hotel no interior, se entupiu de remédios e foi tomar um banho de banheira, banho esse que nunca acabou, e da qual ela nunca mais retornou.

A amiga ficou em choque e sem reação, e carregou em si uma tristeza, tão grande, tão grande, que por mais que se esconda e se camufle, nunca acaba. Foram muitas e muitas noites em que se entregava ao pranto antes de conseguir dormir, momentos esses em que se culpava demais, afinal não tinha estado próxima e presente na vida da amiga num momento em que ela precisou tanto, e não parava de pensar que, talvez, sua presença pudesse ter dado um rumo diferente à vida da amiga. Essa tristeza e essa culpa, volta e meia reaparecem. Três anos já se passaram, mas a dor não passou (e talvez não passe nunca).

A presença dela ainda é tão forte, que como eu falei lá no começo do post, eu ainda a vejo por aí e fico pensando se tudo aquilo não foi uma brincadeira de mau gosto e que ela está tocando uma vida paralela por aí, como uma pessoa diferente. Eu sei que a cada dia 27 de outubro, dia do seu aniversário, eu sempre vou me lembrar dela com mais força ainda e pensar quantos anos ela estaria completando, e isso é uma prova de que ela nunca deixará de fazer parte da história dessa amiga aqui, mesmo tendo escolhido encurtar seu caminho ao lado de todos aqueles que a amavam e a queriam bem. As preces e vibrações por ela serão sempre uma constante e a lembrança de tantos momentos especiais, jamais serão apagadas.

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Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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2 respostas a Sobre perdas com as quais não sabemos lidar…

  1. joiceg diz:

    Lindo texto… pena que eu não sei lidar muito bem com a morte. Portanto, nem sei o que comentar! :(

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