E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina…

Eu evito pegar pesado nos temas aqui do blog nos finais de semana, porque acho que são momentos que todos temos para descansar, espairecer, por isso, em geral, deixo meus temas mais contundentes para os dias de semana. Até porque também tem mais gente online pra debater e a coisa toda pegar fogo.

Eu ia postar apenas no Facebook, mas quando vi a repercussão que o tema teve por lá, resolvi trazer para cá também. Essa semana completam 20 anos que o governo de São Paulo autorizou uma matança e a população, sedenta de sangue, aplaudia tudo aquilo. Eu tinha 13 anos, estava na 8ª série e lembro bem a repercussão daquilo tudo na época. São Paulo tinha Fleury no seu governo, e a cidade vivia o último ano do governo de Erundina, e estava cada vez mais reacionária e intolerante, clamando por sangue, pela Rota na rua, tanto que elegeu Maluf na eleição pra prefeito daquele ano.

Muito melhor que eu, com meu bloguinho mequetrege, fizeram Gil e Caetano, em Tropicália 2, na letra de Haiti, quando abordaram o assunto:

E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti
O Haiti é aqui

O que eu acho mais engraçado é que sempre que se levanta esse assunto de polícia justiçando criminosos, pena de morte, milícas e similares, sempre vem alguém chamando quem é contra tudo isso de “aquele pessoal dos Direitos Humanos”. Quando para mim, qualquer pessoa desse universo, por instinto deveria ser a favor dos direitos humanos, não?! Afinal de contas, antes de qualquer coisa, e independente do crime que a pessoa tiver cometido, ela é um ser humano. Para julga-la e condena-la existe a justiça e existem as leis. Lá no Facebook falaram: “ah, agora eles são coitados?! Eu não tenho pena”. Eu não falei em nenhum momento que eles eram coitados… Nunca falei isso referente a nenhum tipo de criminoso, nem mesmo sobre os 111 presos que foram chacinados em 1992. Mas o fato é que eles eram presos, estavam na Casa de Detenção, aguardando julgamento para pagarem pelos crimes que cometeram. Se a nossa justiça é falha, branda etc. a questão já é outra, porém nada disso dá aval à polícia para sair matando e justiçando por aí. Violência não se combate com violência, senão vira um círculo vicioso. Pra mim isso é tão óbvio. Uma breve reflexão é só ver que se passaram 20 anos e nada mudou pra melhor.

Aí as pessoas justificam isso com seus traumas, dizem que eu nunca passei por isso, mas minha mãe foi assaltada com uma arma na cabeça, isso 7 anos depois da chacina. Ou seja, esse ato criminoso não serve como exemplo pra “bandido”, como muitos dizem. A violência aumentou muito nesses anos, alguns crimes mudaram e surgiram – nesse meio tempo apareceu o sequestro-relâmpago, sem falar no latrocínio, que só cresce. Violência só gera violência, independente do lado de que venha. Uma polícia truculenta gera criminosos ainda mais sem escrúpulos. É uma matemática muito simples.

A gente precisa brigar por uma justiça melhor, que funcione de fato. Por um sistema judiciário e carcerário que cumpra a sua função e não achar que polícia ter aval pra sair matando por aí vá resolver alguma coisa. Isso é Código de Hamurabi, olho por olho, dente por dente, e isso tem coisa de 5.000 anos aproximadamente. Será mesmo que a humanidade não evoluiu nada nesse meio tempo?!

O curioso é que para “passar uma borracha” o Alckmin implodiu a Detenção e no lugar construiu o Parque do Povo e uma Fatec. Sério, gente, eu é que não coloco meus pés naquele lugar. Imagina você ir a um parque que fica no lugar onde tanta gente foi morta de uma só vez, sem falar nos tantos outros que morreram em outros momentos enquanto aquilo foi a Casa de Detenção. A energia dali deve ser medonha.

Mas tem gente que não tá disposto a deixar esse triste episódio da nossa história ser mais uma página virada, e o dia de hoje foi marcado por uma série de protestos. E que ao menos isso sirva de exemplo e que o julgamento marcado pra janeiro do ano que vem não acabe em pizza e que alguém pague por toda essa matança.

Aplausos para o governo e eleitorado de São Paulo, que transforma palco de chacina em parque pra criançada brincar. E assim vamos seguindo a vida, votando cada vez pior e achando que tudo é normal e perdendo a capacidade de se indignar. E isso sim é triste, muito triste…

366/248

Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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3 respostas a E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina…

  1. Lamentável seu texto, ali foi sim uma antiga detenção, então vamos pensar pela sua cabeça, porque ali ocorreram diversos crimes nunca mais poderá se construir nada ali? ali hoje ta cheio de vida, pessoas alegres, seria a melhor forma de apagar um episodio triste da cidade de São Paulo, aplausos sim, para o governo do estado de São Paulo, um governo que conseguiu ter os melhores índices de segurança em relação ao resto do País, lamentável amiga seu texto

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