Gentileza gera gentileza e esse deve ser um mantra de vida

Meu pai sempre foi um grande exemplo pra mim, é uma das pessoas mais íntegras que conheço e dono de um talento que ele, modéstia a parte (como já diria a Francisca), gosta de dizer – ou fingir – que não tem. Dono de um ótimo texto jornalístico, desses fluídos, que prende o leitor do início ao fim, foi o grande responsável por ter me levado a escolher esta carreira, que por mim já era sabidamente dura.

Há algum tempo aposentado e exercendo a profissão apenas em freelas esporádicos, ele não se furta a produzir excelentes crônicas que acaba postando em seu Facebook. Até botei pilha pra ele transformar sua série de Transitórias em blog, mas a falta de intimidade dele com a plataforma do WordPress acabou fazendo com que ele voltasse a postar apenas no Facebook.

Eu sou suspeita, mas adoro os seus textos e me divirto com sua percepção de mundo e da análise que faz do comportamento das pessoas e transforma seu dia a dia em deliciosas crônicas.

2015

Essa que eu transcrevo abaixo ele escreveu no dia 31 de dezembro e disparou por email para algumas pessoas caras. Sei que hoje já é dia 03 de janeiro, mas o ano tá bem no comecinho e dá pra dar uma refletida sobre isso que ele fala e, quem sabe, mudar de postura diante de algumas coisas, né! ;)

AH! É TÃO SIMPLES. E FAZ UM BEM DANADO…

Entre uma gôndola e outra do superlotado supermercado, escapando de um atropelo ou trombada de carrinhos carregando crianças crescidinhas e alimentos, observo a cara dura de uma mulher quarentona se fazendo de besta para furar a fila da compra dos pertences para feijoada. Pego apressadamente as frutas que fui buscar para a sogra quase nonagenária – que ela não me leia – e encaro outra dureza, a fila do caixa. De repente, percebo que algumas pessoas estão ficando idosas mais jovens, ali pelos 55, 56 anos. E a meninada de três a quatro anos regride, viram crianças de colo. Sim, porque a placa diz: caixa preferencial para idosos, portadores de deficiências físicas, grávidas ou carregando criança de colo – o que não é o mesmo que criança no colo. E entra gente com menos de 60 anos, outros carregando criança taluda de sandália suja de uso, o que significa que não é deficiente, pois anda e corre. Todos se fazendo de desentendido do que significa “preferencial”.

Como demora a andar essa fila preferencial. Dá até tempo para refletir sobre certas coisas da vida.

Solidariedade, por exemplo. A gente não alardeia. Apenas pratica. Um exercício constante que começa em casa – o que muita gente não leva em conta – ganha a rua, o bairro, a cidade, o país, o mundo.

Não dá para conceber, por exemplo, profissional da área de Saúde pedindo recursos para os Médicos sem Fronteiras, se ele finca fronteiras dentro de sua própria terra. Além de não fazer, rebarba se outros chegam de fora e se apresentam para assumir tarefas que recusam.

Não me contaram. Eu vi. E ouvi. Professor que torce o nariz ao menino que não “habla” português se este é de um dos pobres países vizinhos, mas se desmancham em mesuras quando o falar castelhano é de algum madrileno ou galego. Gente que se faz de desentendida se o francês que escuta é de um haitiano que deus sabe lá como chegou ao Brasil. Mas se desdobram em “merci, madame”, “oui, monsieur” se o interlocutor é do Louvre ou de Sarcelles, Dijon ou da Cote D’Azur.

Chega a minha vez no caixa. Guardo a esferográfica, por coincidência, de uma marca de origem francesa, dobro a folha de anotações e a coloco no bolso da bermuda.
No caminho para casa, ao volante do Hermes, concluo:

Fechemos um ano e abramos o próximo sem as velhas lamentações quanto ao que se vai e os lugares comuns na expectativa do que se aproxima celeremente.

Fiquemos apenas com isso na cabeça:

Gentileza gera gentileza. E solidariedade é uma via de mão dupla.

Que venha 2015.

Denilson Vasconcelos

Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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