Sobre as fotos que vazam

Hoje, ou ontem – sei lá, surgiu um vídeo da Sabrina Sato num institucional que envolve a ONG Safernet e a Always, que aproveitou o “link” entre vazamentos e fez uma ponte pra apoiar uma causa que é séria e que não tem nenhum tipo de regulamentação no Brasil.

E eu acho muito legal o lance de isso ter surgido entre ontem e hoje, justamente o dia seguinte da eliminação da Talita do BBB15. Ainda mais quando eu entrava na timeline do Facebook e via que 95% dos argumentos pra votarem nela variavam entre: “tem que sair logo, só pensa em ficar trepando”; “sai e vem fazer seu pré-natal aqui fora”; “também, sem noção, fica dando pro cara que mal conhece sem camisinha”. E eu ficava pensando: gente, 2015 e eu sendo obrigada a ler isso!!!! o.O

Ontem mesmo o eu conversei com a Regina, uma amiga minha do Rio, sobre direitos da comunidade LGBT e direitos das mulheres, e que se voltarmos 20 anos no tempo, quase nada mudou no universo das mulheres, enquanto pra eles há nítidos avanços – ainda que bem longe do ideal. E concluímos juntas que o principal motivo disso é que nós mulheres somos uma classe muito desunida. Que não se apoia, que se ataca, que se auto-condena. Enquanto a comunidade LGBT tá unida, pronta pra luta junto. Falta muita sororidade e há muitas de nós perpetuando o machismo, se colocando em posição submissa. Alguns exemplos que ouvimos diariamente: “fulana não se dá o respeito”, “foi traída porque não sabe segurar homem”, “fica se dado ao desfrute”, “com essa roupa curta, tá pedindo”, “aquela vagabunda que tá saindo com o meu marido” (ao invés de pensar que muitas vezes, a tal da “vagabunda”, nem sabe que o cara é casado ou namora, e que o grande escroto da história é o cara, porque ele sim tem compromisso com outra pessoa e está passando ela pra trás – mas não, a mulher prefere atacar a “rival” e transformar o cara em prêmio).

Do mesmo jeito que, pelo menos uma vez por mês, eu tenho que me envolver em campanhas de apoio a meninas que tem vídeos e fotos íntimas vazados, pra me solidarizar a elas, pra mostrarem que elas são vítimas e não culpadas. E, principalmente, pra condenar a escrotidão de quem faz isso. Fico me pondo no lugar delas e imagino o como deve ser puxado lidar com isso, ainda mais sabendo que em vários casos, a família é a primeira a se colocar contra a menina.

No final de 2013 (se não me engano), teve uma galera que trocou avatar do Facebook, fazendo o símbolo de ok/cu com a mão, por conta de um vídeo onde a menina falava (e fazia o símbolo): “quer comer o meu cuzinho?!”. Pelo amor!!! Sério, uma pessoa para a sua vida, produz uma foto, modifica seu avatar pra ridicularizar uma garota que se deixou gravar por um cara em quem ela confiava, e todo mundo acha isso normal, acha engraçado? O pior de tudo é ver que tem um monte de mulher que engrossa o coro dos que culpabilizam a vítima. E ainda dizem que ela mereceu porque não se deu ao respeito. o.O

vazamentos

Aí, hoje, com o boom desta campanha #juntascontravazamentos da Sabrina pra SaferNet, tá todo mundo gongando o vídeo, porque na fanpage tem a seguinte dica: “Se você não quer que suas fotos e vídeos sejam expostos, evite enviá-los para outras pessoas”. E aí que tão girando em torno de que isso é uma maneira de culpabilizar a vítima. Mas agora é minha hora de fazer o advogado do diabo: não, não é. E vou explicar meu ponto de vista.

Eu, Tayra, tenho esta postura indicada no site, e prefiro não fazer esse tipo de fotos e vídeos por dois motivos puros e simples:

– quando o amor acaba, muitos não medem esforços para atacar o ex-parceiro e sabe-se lá o que será feito destas fotos e vídeos que até então eram confidenciais;
– um celular, tablet ou computador que contenham as fotos pode ser roubado e aí pra esse material cair em “boca de Matilde” é dois segundos.

Pra mim é uma postura similar a andar com os vidros completamente fechados quando passo pela Baixada do Glicério, porque ali é boca quente, cheio de usuários de drogas e sabido ponto de assaltos. Eu me precaver não quer dizer que eu ache que o assaltante está certo, eu só estou tentando evitar que a assaltada seja eu. Assim como no caso das fotos. Pra mim essa é a maneira que me cabe.

Porém, isso não quer dizer que ache que é errado fazer fotos e vídeos íntimos, por sinal, estou muito longe disso. Acho que num relacionamento cabe tudo aquilo que os envolvidos entendam como certo e ideal. E eu acho SIM que o escroto é o que compartilha, seja ele quem for. Se você recebe por whatsapp e fica perpetuando essa corrente do mal, você é um babaca escroto e nada vai mudar isso.

Agora, acho meio over gongar uma campanha, que envolve uma causa tão séria e pouco falada, porque deram essa dica de não produzir as fotos, ou porque não falaram algo como “culpado é quem compartilha” e focaram no fato de que a garota tem que ter auto-estima e superar o que aconteceu. Gente, é uma vertente. Porque mesmo que apontemos o dedo para o culpado, mesmo que ele venha a ser punido, o estrago na vida da garota – ainda mais nesta sociedade escrota e machista que vivemos – já está feito, e ela vai precisar SIM de muita força pra superar isto, de ter uma auto-estima muito elevada e ser muito bem resolvida com ela mesma pra dar conta da carga que tudo isso implica.

E olha, vou fazer aqui minha mea culpa, e apontar alguns dedinhos – sem citar nomes – mas os envolvidos se reconhecerão na situação. Em meados de 2008, o Judão divulgou uma foto de uma musa-web. Na mesma hora um leitor reconheceu a menina e falou: “ela não é irmã da fulana? Essa fulana estudou comigo, era uma gostosa, vazou umas fotos dela pelada, segue em anexo”. E PÁ! Fotos chegaram até nós, Thi ficou chocado com o todo e me mostrou. Eu fiquei chocada e fui comentar no lugar em que eu trabalhava e onde todo mundo conhecia a musa-web, que era irmã da fulana das fotos vazadas. A maioria ficou curioso em ver as fotos, alguns mandaram pros seus maridos e namorados, tecemos todos os tipos de comentários, sobre o vazamento, sobre o corpo da menina, sobre o tom das fotos (uns falando que era vulgar, outros achando de bom gosto e por aí vai). Até que uma menina (que hoje é bem famosa, está na TV e tudo mais), que era mais próxima da musa-web foi a única voz sábia de toda a questão e disse: “não acho legal vocês ficarem vendo estas fotos e nem falando a respeito. Esse lance aconteceu há mais de dois anos e a menina até tentou se matar”. VRÁ!!! Voadora no meio da minha fuça que fui a responsável por mostrar as fotos àquele grupo restrito – e que vai saber pra quem mais cada um mostrou dali pradiante. Sim, isso tem quase sete anos, e eu fiz uma merda tremenda, e tomei um soco no estômago bem ali, no mesmo dia e comecei a pensar a respeito.

A Tayra de hoje é completamente diferente da Tayra de 2008, em muuuuitos pontos, e esse episódio me marcou sim, e me fez refletir e mudar muito a minha postura e meu pensamento a respeito disso tudo. E eu hoje compro briga e dou a cara a tapa quando surgem situações similares, defendo a menina, me coloco no lugar e tento conscientizar os outros, do mesmo jeito que fizeram comigo em 2008. Espero estar plantando frutos.

estupro bebida

Voltando a falar de BBB, acho que isso tem uns dois ou três anos, rolou aquele episódio de suposto estupro dentro da casa, e o que mais ouvi foi gente falando: “ah, mas aí também, a menina enche a cara, tá sujeita a qualquer coisa”. Oi?! Ou seja, bebeu demais, usou saia curta, na cabeça dessa galera – inclusive de muita mulher – é o mesmo que se colocar numa bandeja com os dizeres “estou pronta pra ser estuprada!”. Tá mais do que na hora de darmos um basta nessa coisa toda. E eu acho muito louvável uma marca se propor a falar de um assunto tão sério e tão velado, tratado como tabu. Temos sim de falar de vazamentos de fotos e vídeos, temos sim que dar suporte às vítimas, temos sim que ajuda-las a elevar a auto-estima, e temos sim que apontar o dedo para os verdadeiros culpados, que é desde o cara que colocou esse material online, até cada um que compartilha esse conteúdo.

NUNCA COMPARTILHE FOTOS ÍNTIMAS DE OUTRAS PESSOAS!!! NUNCA!!!! EM HIPÓTESE ALGUMA!!!

Cabe a cada um de nós barrar esse tipo de corrente do mal. E cabe a cada uma de nós, mulheres, nos darmos apoio e nos protegermos mutuamente, caso isso venha a acontecer com alguém que você conhece. Cabe também, a cada um de nós, ter uma postura como teve a minha amiga, lá em 2008, de abrir o olho e chamar atenção de quem está compartilhando e/ou comentando a respeito de fotos vazadas. Porque é assim, nesta luta diária, que nós vamos mudar este cenário. Eu quero que minha filha viva num mundo mais justo do que o que eu vivo, é por isso que eu batalho dia após dia. E acho muito legal ver marcas se aliando a esta causa, ainda que mais timidamente, de uma maneira menos contundente, porém, falando.

Guardadas as devidas proporções é como quando teve o casal gay de A Próxima Vítima, interpretado por Lui Mendes e André Gonçalves. Foi um passo, super comemorado por vários ativistas, ainda que eles mal pegassem na mão um do outro, e nunca tenham dado nem mesmo um beijo na bochecha. Daí até o beijo entre Félix e Carneirinho pra encerrar Amor à vida, levamos 19 anos, ainda que no meio do caminho, em 2005, na novela América, o Bruno Gagliasso tenha gravado aquele que seria o primeiro beijo gay e ele tenha sido cortado na edição. É o primeiro passo de uma caminhada. Acho que essa campanha da Always/Safer net tem que ser encarada desta maneira e não como um telhado de vidro a ser apedrejado. Mas bem, essa é apenas a minha opinião.

Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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