Sobre solidariedade e empatia

Ontem ao longo do dia – seja ao vivo, seja por whatsapp, SMS, e-mail ou mensagens no Facebook – o que mais recebi foi agradecimento por tudo que fiz pelo Sanderson, tanto eu quanto as meninas (Ana Lúcia, Ana Cecília, Delma, Fernanda e Dani). Agradeciam a mim, para que eu repassasse a elas.

Eu só agradecia de volta e dizia que não era nada demais. Passei a tarde toda refletindo sobre isso, e, realmente, não é nada demais. Ou ao menos não deveria ser, né! Sim, é fato que nos últimos três meses eu estive muito próxima do San e que eu e as meninas nos mobilizamos de diversas maneiras para dar uma vida melhor e mais digna pra ele nesse momento tão duro. Mas para mim isso é a maneira elementar e automática que qualquer ser humano deveria agir, não?! Juro que não consigo nem conceber outra maneira de agir.

Sério mesmo, não estou fazendo demagogia ou enaltecendo meu cartaz, mas pra mim é algo tão automático e comum, que acredito de verdade que todas as pessoas são assim (ou ao menos deveriam ser). Uma vez uma das meninas que esteve ao meu lado cuidando do San, agradeceu por eu e Delma estarmos sempre ali por perto dele (porque tínhamos horários mais flexíveis e acabávamos dando um jeito de estar mais perto fisicamente) e eu disse que, de coração, no meu entendimento eu ainda estava fazendo pouco.

Isso porque, pra mim, pra minha vida, pra minha história, o Sanderson foi sim muito importante, foi peça-chave na minha carreira na dança, foi o partner que mais dançou comigo e com o qual eu tinha uma verdadeira simbiose. Isso não há como ser medido. E por conta de tudo isso, assim que soube de seu estado e do quanto ele precisava de amparo, não pensei duas vezes antes de me mobilizar.

amigos

Pra mim isso é automático. Sei que na minha família é assim, porque sempre convivi com meu pai e minha mãe tendo as mesmas atitudes. Se há alguém precisando de apoio, carinho de uma mão estendida, o momento de fazer isso é agora. Me lembro sempre de um trecho de A garota que eu quero de Markus Zusak em que ele fala um pouco disso:

– Importa-se se eu lhe perguntar se já foi casado? – indaguei

– É claro que não. Fui casado sim, mas minha mulher morreu há alguns anos. Vou ao cemitério todo fim de semana, mas não levo flores. E não falo nada. — Deu um suspiro e soou muito sincero. De verdade – Gosto de pensar que fiz isso o bastante enquanto ela era viva, sabe?

Assenti.

– Não adianta nada, depois que a pessoa morre. Isso é para fazer quando as pessoas estão juntas, ainda vivas.

(…)

– E o que você faz quando fica lá junto à sepultura? – perguntei.

Ele sorriu.

– Fico lembrando. Só isso.

(Página 29 – A garota que eu quero – Markus Zusak)

A gente tem que estar ali, em vida, pras pessoas que amamos e com as quais nos importamos. Não adianta se fazer de sensível, abalado, só na hora que alguma fatalidade ocorre. O amor, o braço estendido tem que ser aqui e agora. E é assim que eu tento agir. Quem me conhece sabe disso, porque falo e pratico, e sem fazer nenhum tipo, porque eu tenho uma porrada de defeitos, mas eu tento sempre aliar meu discurso à minha prática. Por isso, é sim do meu perfil botar a mão na massa por aqueles que eu amo, e por aqueles que eu sinto que precisam de mim, da minha ajuda. Não é auto-promoção, não é nada parecido. Muitas vezes eu boto a boca no mundo, porque é minha maneira de me expressar, e também, porque assim consigo mobilizar mais gente em torno de uma causa.

solidariedadearma

Com o San, postei aqui, e muita gente que não o conhecia ajudou de diversas maneiras, por que se importava comigo, e consequentemente passou a se importar com ele. Minha sogra nunca o viu e deu roupas, calçado, ajudou com dinheiro, doou computador; a irmã dela também colaborou com um bom montante; meus primos Fê e Rafa consertaram o computador que acabou indo pra ele; muitos amigos meus compraram a rifa pra ajudar; amigas médicas como Bia e Natália estavam sempre acompanhando de perto a rotina de consultas e me explicando de forma bem didática a evolução da doença; a Talita que foi crucial num de seus últimos momentos, e que segundo o próprio foi o dia mais feliz da vida dele, que foi o reencontro dele com o cachorro no hospital, 40 horas antes de seu falecimento; a Boo que eu um dia pediu pra ir comigo visitá-lo, e que depois disso se sentiu tocada e passou a ir comigo várias vezes (e esteve ontem ao meu lado); o Jorge e a Dona Fátima, que me ajudaram a dar mais dignidade ao lugar que ele morava, e Jó que me amparou no retorno do Rio pra cá após receber a notícia… Este tipo de coisa acaba acontecendo ao meu redor, porque eu boto mesmo a boca no mundo. Não é pra me valer, é apenas para agregar.

E eu não quero nada em troca por ser assim. Se bem que, pensando bem, quero sim: quero que isso seja natural, tão natural ao ponto de não ser algo que surpreenda as pessoas pela entrega e dedicação.

O que mais quero é um mundo onde haja cada vez mais solidariedade e empatia. E sei que não foi à toa que San uniu e reuniu eu, Ana Lúcia, Ana Cecília, Delma, Fê, Dani, Ginna e Terezinha. Algo de muito especial ele tinha preparado para nós. Certeza!!! Ainda não sabemos ao certo o que é, mas descobriremos e vamos concretizar o que quer que ele tenha planejado. <3

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Sobre Tayra

"Eu não aceito o que se faz Negar a luz, fingindo que é paz A vida é hoje, o sol é sempre Se já conheço eu quero é mais"
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